• sobre
  • menu
  • categorias
  • supostamente, ela escreve

    supostamente, ela escreve

    Esse blog foi criado para que eu, Natália Oliveira, tivesse um espaço na internet para publicar meus textos. A bem da verdade, mais procrastino que escrevo, mas isso não me impede de sonhar acordada com o dia em que conseguirei escrever algo realmente bom. Sou saudosista da época dos blogs pessoais, gosto de histórias (e fofocas) e de jogos casuais. Esse blog já teve vários nomes (natalapses; natália non grata; olive trees, garnets and trains) e escrevo nesse espaço de forma inconstante desde agosto de 2016.

    Se quiser entrar em contato, basta deixar um comentário ou mandar um e-mail para mail.natalialvr@gmail.com.

    coleção de quotes – twitter – spotify – link afiliado da amazon

    Antes tarde do que nunca, esse é um post sobre setembro amarelo. Antes de lê-lo, você deve ter em mente que:

    • vou falar sobre episódios depressivos, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e ideação suicida. Esses assuntos podem ser gatilhos, principalmente para quem não está em um momento legal. Se esse é seu caso, recomendo fortemente que não leia esse texto e que procure ajuda. Aqui tem todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV) e nessa thread tem o contato de algumas clínicas populares que fazem atendimentos gratuitos (ou mediante pagamentos simbólicos). Não deixe de procurar ajuda, tá bem? 
    • não sou profissional da saúde e não tenho formação na área. Tudo o que está escrito aqui advém da minha experiência e da minha percepção. Não são verdades absolutas, não são parâmetros para autodiagnostico (nada deveria ser, se você pensar bem) e não são regras universais. Se você identificar alguma coisa nesse texto que esteja esdruxulamente errado, me manda uma mensagem para que eu possa colocar uma errata no post, ok?

    A memória mais antiga que eu tenho com relação à saúde mental advém do início dos anos 2000, quando estava na segunda série. Uma amiga e eu estávamos criando nossas assinaturas, porque era muito adulto ter uma assinatura e saber fazer ela igualzinha todas as vezes. Lembro de estar sentada na frente da TV, praticando incessantemente minha nova assinatura, quando ouvi uma moça dizer que as pessoas que faziam “forcas” no final da assinatura tendiam a cometer suicídio. Olhei para todas aquelas folhas com garranchos rabiscados e a única coisa comum a todos aqueles rabiscos era a “forca” no final. Talvez tudo tenha começado aí, talvez seja uma daquelas coisas latentes que se manifestam na nossa personalidade mais cedo ou mais tarde, não importa muito agora. O que importa é que, a partir daquele momento, suicídio entrou na lista de assuntos que despertam o meu interesse.

    Muitas pessoas torcem o nariz quando o tema é morte e/ou suicídio. Algumas vão dizer “Deus me livre” e cortar o assunto, outras vão fazer careta e sair de perto. Nunca foi meu caso. Pensar na morte era tão natural quanto respirar e querer morrer não era mais do que um sintoma de estar viva. E eu realmente acreditava – e, de certa forma, continuo acreditando – que se falássemos mais sobre isso seria muito mais fácil diferenciar um “tive um dia péssimo, queria estar morta” de um “comprei três caixas de paracetamol e estou pensando em me matar”. Mas eu também acreditava que, se eu chegasse nesse ponto, seria mais fácil pedir ajuda. Afinal, uma pessoa que não tem problemas em falar sobre morte não vai ter problemas em procurar ajuda psicológica/psiquiátrica no momento de dificuldade, certo? Bom, não. Nada certo.

    Foto por @yanots

    Aos dezoito anos, comecei a ter alguns sinais de que as coisas não estavam indo tão bem. Alguns choros injustificados, tristeza e desânimo. As vezes piorava, mas não chegavam a ser ruim em um nível que me preocupasse. Estar mal é normal, acontece. Aos vinte, comecei a trabalhar em um lugar... pesado. Um lugar com um número de eventos estressores bem maiores que o normal (ou que o necessário). Os sintomas pioraram, ficaram mais frequentes, evoluíram. Medo de sair de casa com os amigos, medo de esquecer a senha do cartão e atrasar toda a fila do caixa, ataques de pânico, compulsão alimentar, ideação suicida.

    Demorei quase um ano para procurar ajuda psicológica e nem vou entrar no mérito da intervenção psiquiátrica porque ainda não estou bem resolvida com isso. O fato é que eu não acreditava que tinha depressão, nem que ansiedade fosse uma questão, muito menos que procurar métodos de cometer suicídio na internet e considerar comprar alguns itens eram comportamentos problemáticos para alguém que gostava tanto do tema. E sabe por quê? Porque eu não perdi peso, ganhei peso. Não tinha insônia, nem dificuldade para dormir. Na verdade, eu dormia em qualquer lugar, em qualquer horário, em qualquer posição. Porque por mais que eu não gostasse de acordar, eu conseguia levantar da cama, tomar banho e ir trabalhar. Porque o choro compulsivo fora de hora e sem motivo era apenas sintoma da TPM, a perda de interesse e a falta de vontade de fazer qualquer coisa eram preguiça, a irritabilidade era da minha personalidade.

    Doenças e transtornos de ordem psíquica são como doenças e transtornos físicos: os sintomas variam. Você chega no hospital com dor de cabeça: pode ser um simples resfriado, pode ser enxaqueca ou pode ser um derrame cerebral. Óbvio que existem estereótipos e sintomas mais comuns, mas tê-los não te faz estar doente, da mesma forma que não os ter não te isenta dessa condição. Os sintomas são tão variados, específicos e concomitantes que alguns psicólogos não gostam de trabalhar com diagnóstico. O tratamento é tão específico que algumas pessoas ficam em tratamento psiquiátrico por anos até encontrar um remédio que se adeque ao seu organismo e suas necessidades.

    Se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Quadrinho por @cartumante

    O setembro amarelo é uma campanha brasileira para a prevenção do suicídio. O intuito da campanha é promover discussões e conscientizar a população acerca da importância dessa discussão. Por ano, 12 mil pessoas tiram sua própria vida e estima-se que mais de 96% dos casos estejam ligados a algum tipo de transtorno mental (os dados são do site oficial da campanha). É um assunto sério, é uma questão de saúde pública. Um problema dessa magnitude não vai ser resolvido em uma conversa pelo chat do Facebook, não vai ser resolvido com um abraço ou com um café. Cada ano que passa eu vejo mais e mais pessoas se disponibilizando para "ouvir desabafos" e para "conversar" sobre transtornos mentais. Quando vejo isso, só consigo pensar nesse quadrinho que a @cartumante sabiamente criou. Repito a pergunta: se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Esse post não está aqui para dizer que você não deve ajudar seu amigo/colega que está passando por uma situação difícil, mas existem formas de ajudar. Se alguém te procura para desabafar e você percebe que não é um simples desabafo, que aquela pessoa pode ter sintomas de depressão ou de algum transtorno de ordem psíquica, estimule-a a buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Sua tentativa de solucionar o problema sem a ajuda desses profissionais pode acabar piorando a situação ou postergando a procura por ajuda adequada, como aconteceu comigo. Lembro de ter uma dessas conversas de "pode desabafar comigo" durante uma crise de ansiedade que acabou desencadeando em uma série de eventos dos quais me envergonho até hoje. Mesmo assim, tive muita sorte: pagar um mico era a coisa mais leve que podia ter saído dessa conversa.

    Se você conhece alguém que está tendo idealizações suicidas, incentive-o a buscar ajuda especializada. Nesse link você encontra todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV). Eles atendem por chat, telefone (ligação gratuita), e-mail e presencialmente (infelizmente nem todas as cidades possuem postos de atendimento. Consulte o mais próximo de você aqui).

    Se você precisa de atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, a @pseudoruiva_ fez uma theread muito bacana com os contatos de clínicas populares que oferecem atendimento gratuito.

    Se você precisa de atendimento psiquiátrico gratuito, o SUS disponibiliza esse atendimento através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Esse serviço ocorre em diversas modalidades de atendimento, portanto é indicado que você procure o Núcleo de Apoio à Saúde da Família da sua cidade para que eles realizem o encaminhamento para o CAP adequado.

    Se você quer ajudar com a campanha Setembro Amarelo, o site oficial da campanha disponibiliza uma cartilha e posters que você pode imprimir e distribuir por aí. Eles também tem modelos de posts para redes sociais. 
    . 26 setembro 2019 .
    . 13 agosto 2019 .

    Há exatos três anos, no dia 24 de agosto de 2016, eu fiz minha primeira publicação no meu antigo blog, o LAPSOS. O fato de essa coincidência não ter sido planejado me deixou reflexiva - ultimamente, eu tenho refletido muito sobre coisas que antes julgava simples, banais e corriqueiras. Eu escrevo em blog desde... desde sempre. Não consigo me lembrar muito bem do ano exato, mas meu primeiro cantinho na internet tinha endereço .zip.net, era hospedado em um host da UOL que não existe mais e, para acessá-lo eu usava meu e-mail @oi.com.br. Minha internet era discada, eu fazia buscas no Cadê (um serviço de busca brasileiro que foi comprado pelo Yahoo!) e meu blog preferido era o Blog da Dê, uma menina que morava em São Paulo e compartilhava prints de jogos de maquiagem. 

    Sempre fico nostálgica quando falo sobre blogs porque eles sempre fizeram parte da minha vida. E junto com eles sempre existiu essa vontade de pertencer a um grupo de pessoas que compartilham a vida na internet. Para o meu azar, participar e pertencer são coisas muito diferentes. Eu sempre participei desse mundo: trocava selos de awards feitos no glitterfy, deixava comentários, escrevia longos textos sobre o quão era difícil ser adolescente, resenhava livros, participava de grupos de blogagem coletiva. Mas eu não pertencia.


    Em meados de 2005, não pertencia porque minha internet não era rápida o suficiente para carregar todos aqueles gifs. Em 2008, porque meu computador não tinha photoshop para fazer layouts com brushes e pngs transparentes. Em 2011, meus dramas adolescentes não eram tão legais quanto os das meninas que saiam escondidas para ir em festas. Em 2013, não tinha visualizações e comentários suficientes para ser digna de nota. Em 2016, meu conteúdo não era autêntico o suficiente para participar da blogosfera old schol.

    Sempre ficava ali, à margem. E, pensando sobre isso agora, percebo que talvez essa seja a razão pela qual eu precise recomeçar de tempos em tempos. Cada uma dessas tendências representa uma oportunidade que tive de me adequar, assim como cada um dos meus blogs representa uma tentativa vã de sentar na mesa dos populares (ou dos desajustados orgulhosos) durante o almoço. Não conseguir alcançar um objetivo pode ser frustrante, mas quando esse objetivo ganha uma conotação subjetiva desproporcional, a coisa extrapola a frustração e se transforma em fracasso.

    E o fracasso... bom, o fracasso fede. E não adianta esfregar. O cheiro dele não sai do seu corpo desse jeito.

    Foto por @fotografierende
    Mas a vida continua, certo?

    Conforme o tempo foi passando, o meu apreço pelo mundo dos blogs e o sonho de ser a nova Agatha Christie se transformaram em objetivos mais concretos - como arrumar um emprego, ganhar um salário, parar de viver as custas dos meus pais e pagar meus boletos. Assim como a Tati e a Manu já pontuaram muito bem (tanto que senti que elas tinham arrancados os sentimentos de dentro de mim e colocado na tela do computador), o fato de eu não ter me enveredado por uma profissão ligada a escrita fez com que minha relação com ela desandasse.

    Como num casamento, a escrita e eu passamos por várias crises. Primeiro, com a falta de tempo e o sentimento de não ser boa o suficiente. Depois, com o mestrado e a imposição da escrita científica - e aí coisa desandou de vez. Passei meses olhando para a tela em branco. Das primeiras três páginas de rascunho do meu projeto de qualificação, apenas dois parágrafos ficaram intocados - não por estarem bem escritos, mas porque minha orientadora não teve tempo para ler tudo. A folha em branco no word (em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5) não só me encarava, mas me assombrava. O medo me travou. A menina que foi desclassificada da olimpíada de redação por "escrever demais" começou a desconfiar que nunca tinha sido alfabetizada.

    Mas desapegar é difícil. Mesmo com as crises, problemas e traumas, o apego e o amor ainda estão lá. Assim como os noivos jogam os votos um na cara do outro "até que a morte os separe", eu me vejo olhando para a pequena Natália que viveu seus melhores momentos em meio a palavras (lidas e escritas) e não consigo deixá-la para trás. Não consigo dizer para ela que é o fim, que o ensino médio terminou, que a vida adulta exige sacrifícios e que, de qualquer forma, a mesa dos populares era só uma metáfora.

    Ainda sobre metáforas, me vejo como o dilema do porco espinho, de Schopenhauer: ficar perto da escrita me machuca, mas se eu me afastar demais estarei fada à morte. Não literalmente, claro, mas acho que exemplo ilustra bem. Eu preciso escrever. E mesmo que eu nunca consiga pertencer ao mundo dos blogs, a escrita faz com que eu pertença a mim mesma. Não é muito, mas, por hora, é o bastante.

    We live in the shadows and 
    we had the chance and threw it away 
    and it's never going to be the same
    'cause the years are falling by like the rain 
    it's never gonna be the same 
    'til the life I knew comes to my house and says 
    hello
    . 16 dezembro 2018 .

    Minha mãe sempre teve alguns livros em casa e eu lembro de passar bastante tempo mexendo neles, procurando alguma coisa bacana para ler. Geralmente eu me apegava aos livros da coleção Literatura em Minha Casa, que minha mãe ganhou quando a biblioteca da escola onde ela trabalha doou os livros que não usavam o (não mais tão) Novo Acordo Ortográfico. Passeando por todas as capas e textos, eu sempre olhava de rabo de olho para um livrinho fino, da lombada roxa. Sempre espreitando, esperando que chegasse a vez dele. Nunca chegava, porque eu fazia questão de tampar sua capa colocando outro livro por cima e ignorava completamente o fato de que lê-lo era uma opção.

    Aquela famosa frase "não julgue o livro pela capa" nunca funcionou aqui. Aquela lombada roxa trazia consigo um fantasma debochado, cujos cabelos se confundiam com a copa de uma árvore seca, em meio a letras amarelas que só faziam aquilo ficar mais e mais bizarro. Eu tinha pavor dessa capa. Lembro de ser uma criancinha medrosa, que chorava toda vez que, em um descuido, minha mãe deixava a capa daquele livro à mostra.

    Se essa capa não faz você sentir uma coisa muito ruim, tá errado

    O tempo passou, o medo também, mas aquela lembrança amarga do ranço daquele livro me perseguiu. Dizia aos quatro cantos que a alta literatura brasileira era uma vaidade inacessível para grande parte do povo que faz parte desse país (e ainda penso isso) e que não merecia ser lida, muito menos digna de apreço. Sim, eu me sentia digna de achar Machado de Assis overated. E isso perdurou até o dia em que a professora de português da oitava série exigiu que a turma toda lesse o tal do Memórias Póstumas de Brás Cubas. E eu li.

    E continuei achando uma bosta!

    Hoje, depois de adquirir um pouquinho mais de conhecimento e a plena noção de que não sei porra nenhuma, consigo perceber a genialidade por trás dessa obra. A ironia, o escárnio, o desprezo pela condição humana e o deboche são trejeitos incrustados em mim de uma maneira tão marcante quanto estão nessa obra. Eu tinha tudo para amar esse livro, mas não amei.

    E por quê? Porque minha professora de português me obrigou a ler o livro.

    Lembro que essa professora chegava na sala e escrevia uma frase no quadro, do tipo "Maria e João foram à praça passear" e, em seguida, perguntava para a turma "Qual o sujeito da frase?". Eu era a única que sabia a resposta, porque era uma das poucas que estavam fazendo cursinho (gratuito!) para entrar na escola técnica. Uma vez ela pediu para que eu parasse de responder a essas perguntas e deixar os outros alunos tentarem, mas toda aquela dinâmica não era sobre tentar! Era sobre aprender! Mas ninguém aprendia naquela sala, nem em nenhuma das outras sete salas que tínhamos frequentado durante o ensino fundamental. Nessas salas, a lógica sempre foi mais sobre dar a resposta certa do que sobre aprender.

    Se a gente não sabia qual era o sujeito da frase "Maria e João foram à praça passear", como íamos saber o que Brás Cubas quis dizer com o tal "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas"?

    Foto da réplica da biblioteca de Juscelino Kubitschek, no Memorial JK.

    Eu tiro duas conclusões principais desse post: 1) o ensino público no Brasil precisa ser repensado, não perdendo tempo com aquela merda de discussão idiota sobre escola sem partido (falha nos seus próprios termos lógicos), mas pensar as possibilidades metodológicas e propor uma mudança concreta nos conteúdos; e 2) gostar ou não de um livro está muito relacionado ao momento em que estamos vivendo. Obrigar um jovem que nunca teve contato com a leitura a consumir um livro clássico, com colocações e vocabulários que não são acessíveis a ele, pode fazer com que essa pessoa nunca mais queira ler um livro - da mesma forma que o mesmo jovem pode ler um livro juvenil e tomar gosto pela leitura (saudades série vaga-lume).

    Para encerrar, gostaria de parabenizar o design que fez a capa desse livro: obrigada pelo trauma ¯\_(ツ)_/¯

    Atualização (18/09/2021): não acho justo chamar esse livro de "uma bosta" como eu disse lá em cima. Hoje consigo enxergar o valor cultural do livro e a genialidade das alegorias que Machado de Assis colocou nesse livro. De fato, é uma obra excelente e muito divertida de ler - desde que você tenha maturidade para compreender a leitura. Para que você não tenha o mesmo trauma que eu, recomendo essa edição publicada pela Antofágica.

    Conta aqui nos comentários se você já leu esse livro e o que achou dele. Aproveita para me contar se alguma professora chata já te obrigou a ler um clássico e estragou ele para você.
    . 26 setembro 2018 .

    Seguindo firme na missão de tardar, mas não falhar, este é o segundo post do desafio 3 on 30. No primeiro post eu expliquei pra vocês como o desafio nasceu e quais foram as fotos que separei para o o tema que escolhemos. 

    Nesse mês, eu caí nas garras da minha própria ambição: sugeri para as meninas que tirássemos fotos baseadas em trechos de livros. O que acabou sendo um tiro no pé, porque 1) essa é uma proposta que, por mais legal que seja, é bem complicada de se cumprir e 2) esse mês foi um tanto complicado pra mim (aka inferno astral existe e eu posso provar).

    Antes de ir para as fotos e quotes do desafio, queria que vocês reparassem nesse layout MARAVILHOSO que estamos usando. Como não podia ser diferente, ele é obra da Gabi Melo - e eu super recomendo que vocês visitem o blog dela (pois maravilhoso) e os layouts que ela vende no etsy (pois também maravilhosos e bem diferentes dos layouts padrãozinho e caríssimos que costumam fazer sucesso por lá). Eu não canso de dizer o quanto a Gabi é criativa e inspiradora. Enalteçam o trabalho dessa mulher! 

    Agora sim, vamos às fotos :)


    — Está vendo isto, Cimi? Por cada mãe que amaldiçoou Deus pelo filho morto na estrada, por cada pai que amaldiçoou o homem que o despediu da fábrica e o deixou sem trabalho, por cada criança que nasceu para sofrer e pergunta por quê, esta é a resposta. Nossas vidas são como essas coisas que construo [castelos de cartas]. Às vezes elas caem por alguma razão, às vezes caem por absolutamente nenhuma razão. 
    Carlocimi Dretto considerou aquele o mais profundo depoimento que já ouvira sobre a condição humana.

    Esse trecho pertence ao livro A Escolha Dos Três (segundo livro d'A Torre Negra), do Stephen King. É uma das minhas quotes preferidas da vida. Logo que pensei no desafio, pensei em como conseguiria representar esse trecho em uma foto - e creio que talvez tenha falhado miseravelmente (provavelmente porque as únicas cartas de baralho que eu tinha à mão eram essas com desenhos fofinhos das princesas Disney).

    Pra tentar remediar isso, vou usar o comentário que minha amiga Beatriz fez sobre a foto: "seria muito louco se essa princesa fosse no mal.. as cartas em baixo iam ficar parecendo um cemitério de princesas".Vamos acreditar na interpretação dela.


    Esse espaço fechado, recortado, vigiado em todos os seus pontos, onde os indivíduos estão inseridos num lugar fixo, onde os menores movimentos são controlados, onde todos os acontecimentos são registrados, onde um trabalho ininterrupto de escrita liga o centro e a periferia, onde o poder é exercido sem divisão, segundo uma figura hierárquica contínua, onde cada indivíduo é constantemente localizado, examinado e distribuído entre os vivos, os doentes e os mortos - isso tudo constitui um modelo compacto do dispositivo disciplinar. A ordem responde à peste [...] Ela prescreve a cada um seu lugar, a cada um seu corpo, a cada um sua doença e sua morte, a cada um seu bem, por meio de um poder onipresente e onisciente que se subdivide ele mesmo de maneira regular e ininterrupta até a determinação final do indivíduo, do que o caracteriza, do que lhe pertence, o do que lhe acontece.

    Nesses últimos meses, aconteceram várias coisas incomuns na minha vida. Uma delas foi que eu viajei de avião pela primeira vez: fui para Curitiba, apresentar um resumo expandido em um congresso. O trabalho era sobre presidiárias (mesmo tema da minha dissertação) e uma das leituras obrigatórias para quem estuda esse tema é o Vigiar e Punir, do Focault. Quando o avião fez uma ponte no aeroporto de Congonhas, foi impossível não olhar para essa torre e lembrar do panoptismo (se você não conhece essa teoria, esse texto bem pequenininho explica bem a ideia).

    Essa é a foto que melhor representa a minha viajem e esse momento da minha vida. Estudar a prisão, olhar o mundo com outros olhos e ter a oportunidade de fazer coisas que, normalmente, eu não faria. Ainda não estou certa sobre ter escolhido a ~vida acadêmica, mas posso dizer que esses poucos meses de mestrado me mudaram muito. Espero que para melhor.


    Mais cedo ou mais tarde, até mesmo o mais sólido dos caixões acaba se rompendo e deixando a vida entrar para se alimentar da morte.
    Essa é a foto que me fez ter a ideia do tema do desafio desse mês. Eu estava lendo o Escuridão Total Sem Estrelas (Stephen King vai dominar esse blog) - que recomendo muito por sinal - quando vi essas formigas carregando uma barata morta. Sim, eu sei, é um pouco creepy etc. Mas me fez pensar em como baratas são, ao mesmo tempo, imponentes e decadentes. Uma coisa que coloca medo e asco em tanta gente, e que exerce tanto poder por meio desse medo, mas que, ao mesmo tempo, é tão frágil e insignificante como todas as outras coisas que habitam a terra. Achei poético.

    Sei lá, gente, eu tenho pensamentos estranhos.

    Enfim, esse foi o 3 on 30 (postado com mais de 25 dias de atraso, veja bem). Me digam nos comentários o que vocês acharam das fotos e dos trechos. Ah, e se vocês gostam de colecionar trechos de livros, me sigam no Palavras Sublinhadas, tumblr onde eu posto trechos de livros que estou lendo.

    E não deixe de visitar as meninas que também participam do projeto!
    Ana • Manu • Mia
    . 01 agosto 2018 .

    Dia desses a Manu disse no Twitter que queria participar de um projeto fotográfico, mas não sabia qual e como isso ia acontecer. Depois de algumas replies com ideias aleatórias o 3 on 30 nasceu. O objetivo é postar 3 fotos com um tema definido, como um resumo de tudo o que aconteceu durante o mês com relação ao tema. O tema desse mês é desafio.


    O tema da minha dissertação (que ainda não tem pergunta de pesquisa definida, PÂNICO) envolve mulheres em situação de prisão. Isso implica fazer visitas periódicas na prisão, ler sobre prisão e escrever sobre prisão. Acredito que o ato de pesquisa em si já é uma atividade pesada, mas tudo o que envolve violência contra a mulher me toca de um jeito muito pesado. Meu grande desafio é aprender a digerir isso tudo. E lidar com o ambiente acadêmico, que as vezes me parece mais inóspito do que a prisão que eu visitei.


    Consegui tirar uns dias de férias ("""férias""") e fui visitar a minha avó. A casa dela é sempre uma loucura pra mim, que passo a maior parte do tempo sozinha e sou uma grande apreciadora do silêncio. Sempre tem pessoas, e visitas, e gritos e música e orações (muitas orações, muita missa, muito terço). Tudo isso me faz querer entrar dentro de um buraco e viver lá pra sempre. Tenho a impressão de que grande parte das pessoas associa a solidão à tristeza e a convivência com muitas pessoas à alegria. Minha associação é invertida. Ficar no meio de um monte de gente que fala muita coisa - e que espera muitas respostas - me deixa melancólica. E por alguma razão eu acho que essa foto capturou meu sentimento muito bem. 


    Um céu perfeito, com a quantidade perfeita de nuvens e a quantidade perfeita de sol. Uma leve brisa refrescante e um balanço exato entre as árvores e os prédios. Essa foto tem tudo para representar um dia feliz e agradável, exceto pelo fato de que ela foi tirada no meu trabalho, um dos principais motivos dos meus ~males da mente~. Puta merda, eu nem quero falar sobre isso. Emprego, responsabilidades e boletos pra pagar DESTROEM A VIDA DO SER HUMANO. Repassem.

    Todas as fotos desse desafio realmente carregam um significado grande pra mim e eu duvido muito que tenha conseguido passar pra vocês a dimensão disso. Na minha cabeça, elas falam e representam muito além do que minha pobre escrita conseguiu expressar.

    Mas é isso.

    Não deixem de conferir o blog das meninas que participaram desse momento louco da criação do projeto (elas são ótimas fotógrafas, ótimas escritoras e ótimas pessoas).
    Ana • Manu • Mia