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    supostamente, ela escreve

    Esse blog foi criado para que eu, Natália Oliveira, tivesse um espaço na internet para publicar meus textos. A bem da verdade, mais procrastino que escrevo, mas isso não me impede de sonhar acordada com o dia em que conseguirei escrever algo realmente bom. Sou saudosista da época dos blogs pessoais, gosto de histórias (e fofocas) e de jogos casuais. Esse blog já teve vários nomes (natalapses; natália non grata; olive trees, garnets and trains) e escrevo nesse espaço de forma inconstante desde agosto de 2016.

    Se quiser entrar em contato, basta deixar um comentário ou mandar um e-mail para mail.natalialvr@gmail.com.

    coleção de quotes – twitter – spotify – link afiliado da amazon
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    Se eu tentasse escrever uma reflexão sobre o ano de 2020, falharia miseravelmente. Dificilmente vou dizer algo que outra pessoa não tenha dito antes seja bem vinda à internet, natalia e que não ofenda ninguém - afinal, o que eu mais vi no final do ano foram tweets que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (positividade tóxica!), tweets que criticavam as pessoas que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (deixe as pessoas serem felizes!) e tweets que criticavam as críticas feitas pelas pessoas que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (tenha noção, estamos no meio de uma pandemia. Pessoas estão morrendo!). 

    Soou confuso? Então combina com 2020.

    Faço parte do grupo privilegiado de pessoas que puderam trabalhar em casa e manter o distanciamento social - que, no meu caso, virou isolamento parcial - e passei a maior parte do ano alternando o olhar entre a tela do computador e a parede branca. Nesse contexto, que variava entre o mais completo marasmo e o mais completo caos, acabei refletindo sobre os meus hábitos, minha vida, o universo e tudo mais. Não porque eu quisesse refletir (longe de mim), mas porque foi inevitável não pensar e repensar sobre uma série de questões. A partir delas, mudei alguns hábitos, consolidei algumas percepções e tudo isso foi de grande ajuda para que eu conseguisse terminar 2020 com algum resquício de sanidade mental.

    Para inaugurar a fase 2021 desse blog - e inspirada pelo post da k. - resolvi postar uma compilação dos desdobramentos mais úteis que partiram dessas reflexões. De certa forma, são cinco mini posts, já que eu certamente faria textos maiores e mais pessoais sobre esses assuntos - se estivéssemos em 2008 e eu tivesse tempo livre suficiente para passar todo o fim de semana esperando que a minha internet discada e o Internet Explorer estivessem se entendendo bem. Eis um prato cheio para quem sente saudade dos ~blogs pessoais. 

    imagem por @lgnwvr

    sobre skincare

    Definir uma rotina de skincare é bem mais fácil quando você procura um dermatologista antes de sair gastando dinheiro em um monte de produtos caros recomendados por blogueiras que não tem o menor conhecimento sobre dermatologia. Infelizmente, eu sou uma grande preguiçosa e escolhi trilhar o caminho mais difícil. Quando me arrependi dessa decisão, já tinha desperdiçado muito dinheiro e a pandemia já estava acontecendo, de forma que corrigir o erro ficou menos viável do que permanecer nele. Porém, o tempo em casa e a falta de contato com o sol me permitiram testar todos os produtos que estavam encalhados aqui e eu finalmente consegui montar uma rotina básica de skincare que (aparentemente) funciona para o meu tipo de pele. De uns tempos para cá, consegui manter minha acne em um nível aceitável e diminuir consideravelmente a oleosidade da minha pele (principalmente graças ao Sérum Antiacne da Sallve). 

    sobre o meu carrinho velho

    Talvez soe muito babaca, mas eu tenho uma conexão muito especial com o meu carro. Já perdi as contas de quantas vezes me refugiei nele para chorar ou ficar em silêncio, de quantas vezes já nos divertimos fechando homis folgados no trânsito e de quantas vezes eu me senti bem por poder pensar em nada além de uma série de alavancas que preciso controlar na hora certa. E mesmo que eu tenha usado ele bem menos esse ano, meu carrinho velho poderia ter sido facilmente o objeto mais importante de 2020. Não sei como estão as coisas na cidade onde você mora, mas por aqui o transporte público continua lotado e mesmo que o uso de máscara seja obrigatório, nada impede as pessoas de colocarem a máscara no queixo para espirrar (???) ou para falar bem perto da cara de outro cidadão (???). Sinto um milhão de sintomas de ansiedade só de pensar em ter que pegar o ônibus para ir até o supermercado ou acompanhar minha mãe no médico. Sendo assim, fica aqui meus infinitos e cheios de carinho agradecimentos ao meu carrinho velho pelos serviços prestados em 2020.

    sobre eletrodomésticos úteis demais

    O ser humano é um ser nojento. Você pode constatar isso apenas pela capacidade que temos de sujar um ambiente sem fazer nada além de existir. Não adianta fazer a faxina mais meticulosa do ano: assim que a tarefa terminar você vai sentir dor de barriga ou fome, o que implica diretamente em sujar tudo o que você acabou de limpar. Para a vida ficar mais fácil, comprei dois eletrodomésticos que salvaram o meu isolamento: um aspirador de pó vertical e uma air fryer. Nunca mais usei uma vassoura para varrer a casa (minhas alergias agradecem) e estou me alimentando apenas com nuggets e batata congelada (meu corpo não agradece tanto assim, mas a fatura do meu cartão não está mais lotada de ifood, então tudo bem).

    sobre estratégias de organização

    Já dei um spoiler sobre esse tópico no post com indicação de planners feitos por mulheres, onde disse que me organizar foi um passo muito importante para manter a sanidade mental durante o isolamento social. Porém, além disso, também aproveitei o tempo para organizar a minha organização (será que isso faz sentido?). Consegui testar vários métodos e escolher os que funcionavam mais para mim. Fica aqui uma dica: por mais que existam vários conteúdos sobre rotinas e métodos de organização, é muito difícil encontrar uma receita pronta que funcione perfeitamente para você. Se você quer se organizar, se inspire nesses conteúdos, mas não copie. É muito doloroso perder tempo tentando seguir um método que não funciona para você só porque pessoa x ou y disse que é "a melhor forma de se organizar". A melhor forma é a que funciona para você! 

    sobre ler para escapar da realidade (e se sentir menos inútil) 

    Passei boa parte de 2019 olhando para os meus livros encalhados na estante como quem está morrendo de sede e fita um copo de água geladinha. Por isso, uma das minhas metas de 2020 era ler: independente do tempo, das minhas tarefas e do quanto as coisas estivessem atrasadas (coisas = mestrado). Minha meta era ler dois livros por mês. As leituras fluíram bem em janeiro, mas começaram a encalhar de fevereiro em diante. Por isso, tomei a saída dos covardes e comecei a ler graphic novels porque 1) eu queria e 2) isso fazia com que eu conseguisse ler mais livros em menos tempo. Sei que muitas pessoas consideram que isso é uma "trapaça", mas graças a esse truque consegui me manter motivada e efetivamente ler os 24 livros excluindo as graphic novels da conta. Tenho certeza de que, sem elas, eu teria desistido de cumprir a meta antes da metade do ano. Deixo aqui, então, meus agradecimentos às graphic novels e à Julia Quinn, que me fez ler toda a saga dos Bridgertons em menos de um mês.

    E essas foram as 5 coisas mais interessantes que aconteceram por aqui em 2020. Considerando tudo de ruim que aconteceu durante esse ano, acho que o saldo foi relativamente positivo. Sei que estou bem atrasada para fazer posts com essa vibe adeus ano velho, feliz ano novo, mas acabei demorando (exatos 16 dias!) para concluir esse post em função daqueles mesmos problemas de sempre. Espero que as minhas reflexões e mudanças de hábito possam ter entretido vocês durante alguns minutinhos e que já tenhamos os cartões de vacinação carimbados na próxima virada de ano #BoraVirarJacaré.

    Esse post foi inspirado pelo Year in review: 5 coisas aleatórias que aconteceram por aqui em 2020, postado pela Karine no blog Kaffeina. Recomendo demais o blog e os perfis de fotografia da K: o @karinebrittofoto e o @karinebrtt.co.
    . 18 janeiro 2021 .

    olhando para trás: 5 coisas sobre o meu 2020

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    . 18 janeiro 2021 .

    Se eu tentasse escrever uma reflexão sobre o ano de 2020, falharia miseravelmente. Dificilmente vou dizer algo que outra pessoa não tenha dito antes seja bem vinda à internet, natalia e que não ofenda ninguém - afinal, o que eu mais vi no final do ano foram tweets que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (positividade tóxica!), tweets que criticavam as pessoas que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (deixe as pessoas serem felizes!) e tweets que criticavam as críticas feitas pelas pessoas que criticavam as pessoas que tiveram experiências positivas em 2020 (tenha noção, estamos no meio de uma pandemia. Pessoas estão morrendo!). 

    Soou confuso? Então combina com 2020.

    Faço parte do grupo privilegiado de pessoas que puderam trabalhar em casa e manter o distanciamento social - que, no meu caso, virou isolamento parcial - e passei a maior parte do ano alternando o olhar entre a tela do computador e a parede branca. Nesse contexto, que variava entre o mais completo marasmo e o mais completo caos, acabei refletindo sobre os meus hábitos, minha vida, o universo e tudo mais. Não porque eu quisesse refletir (longe de mim), mas porque foi inevitável não pensar e repensar sobre uma série de questões. A partir delas, mudei alguns hábitos, consolidei algumas percepções e tudo isso foi de grande ajuda para que eu conseguisse terminar 2020 com algum resquício de sanidade mental.

    Para inaugurar a fase 2021 desse blog - e inspirada pelo post da k. - resolvi postar uma compilação dos desdobramentos mais úteis que partiram dessas reflexões. De certa forma, são cinco mini posts, já que eu certamente faria textos maiores e mais pessoais sobre esses assuntos - se estivéssemos em 2008 e eu tivesse tempo livre suficiente para passar todo o fim de semana esperando que a minha internet discada e o Internet Explorer estivessem se entendendo bem. Eis um prato cheio para quem sente saudade dos ~blogs pessoais. 

    imagem por @lgnwvr

    sobre skincare

    Definir uma rotina de skincare é bem mais fácil quando você procura um dermatologista antes de sair gastando dinheiro em um monte de produtos caros recomendados por blogueiras que não tem o menor conhecimento sobre dermatologia. Infelizmente, eu sou uma grande preguiçosa e escolhi trilhar o caminho mais difícil. Quando me arrependi dessa decisão, já tinha desperdiçado muito dinheiro e a pandemia já estava acontecendo, de forma que corrigir o erro ficou menos viável do que permanecer nele. Porém, o tempo em casa e a falta de contato com o sol me permitiram testar todos os produtos que estavam encalhados aqui e eu finalmente consegui montar uma rotina básica de skincare que (aparentemente) funciona para o meu tipo de pele. De uns tempos para cá, consegui manter minha acne em um nível aceitável e diminuir consideravelmente a oleosidade da minha pele (principalmente graças ao Sérum Antiacne da Sallve). 

    sobre o meu carrinho velho

    Talvez soe muito babaca, mas eu tenho uma conexão muito especial com o meu carro. Já perdi as contas de quantas vezes me refugiei nele para chorar ou ficar em silêncio, de quantas vezes já nos divertimos fechando homis folgados no trânsito e de quantas vezes eu me senti bem por poder pensar em nada além de uma série de alavancas que preciso controlar na hora certa. E mesmo que eu tenha usado ele bem menos esse ano, meu carrinho velho poderia ter sido facilmente o objeto mais importante de 2020. Não sei como estão as coisas na cidade onde você mora, mas por aqui o transporte público continua lotado e mesmo que o uso de máscara seja obrigatório, nada impede as pessoas de colocarem a máscara no queixo para espirrar (???) ou para falar bem perto da cara de outro cidadão (???). Sinto um milhão de sintomas de ansiedade só de pensar em ter que pegar o ônibus para ir até o supermercado ou acompanhar minha mãe no médico. Sendo assim, fica aqui meus infinitos e cheios de carinho agradecimentos ao meu carrinho velho pelos serviços prestados em 2020.

    sobre eletrodomésticos úteis demais

    O ser humano é um ser nojento. Você pode constatar isso apenas pela capacidade que temos de sujar um ambiente sem fazer nada além de existir. Não adianta fazer a faxina mais meticulosa do ano: assim que a tarefa terminar você vai sentir dor de barriga ou fome, o que implica diretamente em sujar tudo o que você acabou de limpar. Para a vida ficar mais fácil, comprei dois eletrodomésticos que salvaram o meu isolamento: um aspirador de pó vertical e uma air fryer. Nunca mais usei uma vassoura para varrer a casa (minhas alergias agradecem) e estou me alimentando apenas com nuggets e batata congelada (meu corpo não agradece tanto assim, mas a fatura do meu cartão não está mais lotada de ifood, então tudo bem).

    sobre estratégias de organização

    Já dei um spoiler sobre esse tópico no post com indicação de planners feitos por mulheres, onde disse que me organizar foi um passo muito importante para manter a sanidade mental durante o isolamento social. Porém, além disso, também aproveitei o tempo para organizar a minha organização (será que isso faz sentido?). Consegui testar vários métodos e escolher os que funcionavam mais para mim. Fica aqui uma dica: por mais que existam vários conteúdos sobre rotinas e métodos de organização, é muito difícil encontrar uma receita pronta que funcione perfeitamente para você. Se você quer se organizar, se inspire nesses conteúdos, mas não copie. É muito doloroso perder tempo tentando seguir um método que não funciona para você só porque pessoa x ou y disse que é "a melhor forma de se organizar". A melhor forma é a que funciona para você! 

    sobre ler para escapar da realidade (e se sentir menos inútil) 

    Passei boa parte de 2019 olhando para os meus livros encalhados na estante como quem está morrendo de sede e fita um copo de água geladinha. Por isso, uma das minhas metas de 2020 era ler: independente do tempo, das minhas tarefas e do quanto as coisas estivessem atrasadas (coisas = mestrado). Minha meta era ler dois livros por mês. As leituras fluíram bem em janeiro, mas começaram a encalhar de fevereiro em diante. Por isso, tomei a saída dos covardes e comecei a ler graphic novels porque 1) eu queria e 2) isso fazia com que eu conseguisse ler mais livros em menos tempo. Sei que muitas pessoas consideram que isso é uma "trapaça", mas graças a esse truque consegui me manter motivada e efetivamente ler os 24 livros excluindo as graphic novels da conta. Tenho certeza de que, sem elas, eu teria desistido de cumprir a meta antes da metade do ano. Deixo aqui, então, meus agradecimentos às graphic novels e à Julia Quinn, que me fez ler toda a saga dos Bridgertons em menos de um mês.

    E essas foram as 5 coisas mais interessantes que aconteceram por aqui em 2020. Considerando tudo de ruim que aconteceu durante esse ano, acho que o saldo foi relativamente positivo. Sei que estou bem atrasada para fazer posts com essa vibe adeus ano velho, feliz ano novo, mas acabei demorando (exatos 16 dias!) para concluir esse post em função daqueles mesmos problemas de sempre. Espero que as minhas reflexões e mudanças de hábito possam ter entretido vocês durante alguns minutinhos e que já tenhamos os cartões de vacinação carimbados na próxima virada de ano #BoraVirarJacaré.

    Esse post foi inspirado pelo Year in review: 5 coisas aleatórias que aconteceram por aqui em 2020, postado pela Karine no blog Kaffeina. Recomendo demais o blog e os perfis de fotografia da K: o @karinebrittofoto e o @karinebrtt.co.
    . 30 maio 2020 .

    Tudo o que eu escrevo é sobre escrever.

    Se você me acompanhava finado blog LAPSOS, me segue no twitter (aka melhor e pior rede social do mundo) ou já prestigiou uma das minhas tentativas fracassadas de começar uma newsletter, sabe que a escrita tem sido um grande fardo para mim. A menina que era reconhecida por escrever bem decidiu entrar em um mestrado e toda a sua confiança foi sugada pelo monstro do mundo acadêmico. Desde então, as crises se acumulam no meu colo: crises de identidade, crises de ansiedade, crises criativas, crises existenciais e, óbvio, a crise da escrita.

    Toda nova tentativa que eu faço de voltar a escrever com prazer começa com um monólogo existencial sobre essa briga eterna entre a escrita e eu. E eu imagino que você que tem acompanhado todas as minhas lamúrias - e até mesmo você que acabou de cair de paraquedas por aqui -  pode estar se perguntando "menina, se isso é tão difícil para você, se você já tentou tanto e se isso está te fazendo mal há tanto tempo, por que você não desiste? Por que não esquece isso, deixa de lado, para de forçar e começa a viver uma vida mais leve?". 

    Essa pergunta tem mais de uma resposta, mas a principal delas é: não consigo. Não consigo abrir mão da escrita porque escrevo mesmo sem escrever. Esse texto, por exemplo, já foi escrito na minha cabeça dezenas de vezes: enquanto eu tomava banho, lavava a louça, rolava na cama esperando o sono vir... Em inúmeras situações minha cabeça liga o modo "escrita" e começa a escrever. 

    Consigo diferenciar os pensamentos normais dos pensamentos de escrita porque, como a boa mineira que sou, tenho o hábito de falar e pensar engolindo as palavras. Enquanto os pensamentos normais soam como "tenque pegá os trem e botána sacola puquê o lixero vai passamanhã", os pensamentos de escrita são algo do tipo "os objetos jogados na sacola e a sacola jogada sobre ao chão. Amanhã estarão jogados em outro lugar, dando fim a seu ciclo de serventia descartável". Além disso, os pensamentos de escrita são editáveis, posso voltar e trocar "serventia" por "utilidade", inverter a ordem das frases, transformar tudo em um diálogo, mudar as pontuações. 

    Os pensamentos de escrita ecoam na minha cabeça, mas raramente passam para o papel (ou para a tela do computador, você entendeu).

    O mais frustrante sobre isso tudo é que eu poderia lotar uma biblioteca com todos os textos que não escrevi. Se eu começasse a escrever assim que os pensamentos de escrita invadissem a minha imaginação, Stephen King não seria ninguém na fila da produtividade. Mas eu não começo, não escrevo. Anoto uma coisa aqui e ali e juro para mim mesma que vou voltar nessas anotações e transformar aquilo tudo em um texto brilhante, mas procrastino essas palavras para sempre. Continuo sendo uma escritora assídua no mundo de faz de conta que existe na minha cabeça e uma grande vagabunda fracassada no mundo real.

    imagem por @tanyatrukyr

    Ah, e ainda temos uma cereja para colocar nesse bolo: a COVID-19.

    Esse post está sendo publicado no meio de uma pandemia (meio, risos, quem dera fosse o meio...). Meus pensamentos de escrita as vezes me carregam para cenários distópicos e, como sempre tive uma tendência a ser fatalista, sempre fui capaz de imaginar crimes em massa, guerras, crises econômicas catastróficas e desastres naturais de grande porte. Mas nem no auge da minha criatividade eu seria capaz imaginar que isso tudo viria junto com uma pandemia, um presidente genocida e um grupo de lunáticos que pedem a publicação de um novo AI 5 em nome da liberdade de expressão. É, eu sei. Nada é tão ruim que não possa ficar pior. 

    Enfim, no meio desse caos interno e externo, percebi que nunca vou conseguir terminar minha dissertação se não voltar a ter prazer em expulsar as palavras do meu cérebro e obrigá-las a ir para o mundo. Além disso, vejo certa beleza em começar algo no meio de uma pandemia. É como olhar na cara da morte enquanto fim e soprar a vida em forma de início - não por amor a vida em si, porque isso não faz meu tipo, mas por amor a "ser do contra".

    Essa é a tentativa número 1319 de voltar a escrever com prazer. Sejam bem vindos.

    Para ler mais reclamações, você pode me seguir no twitter.
    . 26 setembro 2019 .

    Antes tarde do que nunca, esse é um post sobre setembro amarelo. Antes de lê-lo, você deve ter em mente que:

    • vou falar sobre episódios depressivos, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e ideação suicida. Esses assuntos podem ser gatilhos, principalmente para quem não está em um momento legal. Se esse é seu caso, recomendo fortemente que não leia esse texto e que procure ajuda. Aqui tem todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV) e nessa thread tem o contato de algumas clínicas populares que fazem atendimentos gratuitos (ou mediante pagamentos simbólicos). Não deixe de procurar ajuda, tá bem? 
    • não sou profissional da saúde e não tenho formação na área. Tudo o que está escrito aqui advém da minha experiência e da minha percepção. Não são verdades absolutas, não são parâmetros para autodiagnostico (nada deveria ser, se você pensar bem) e não são regras universais. Se você identificar alguma coisa nesse texto que esteja esdruxulamente errado, me manda uma mensagem para que eu possa colocar uma errata no post, ok?

    A memória mais antiga que eu tenho com relação à saúde mental advém do início dos anos 2000, quando estava na segunda série. Uma amiga e eu estávamos criando nossas assinaturas, porque era muito adulto ter uma assinatura e saber fazer ela igualzinha todas as vezes. Lembro de estar sentada na frente da TV, praticando incessantemente minha nova assinatura, quando ouvi uma moça dizer que as pessoas que faziam “forcas” no final da assinatura tendiam a cometer suicídio. Olhei para todas aquelas folhas com garranchos rabiscados e a única coisa comum a todos aqueles rabiscos era a “forca” no final. Talvez tudo tenha começado aí, talvez seja uma daquelas coisas latentes que se manifestam na nossa personalidade mais cedo ou mais tarde, não importa muito agora. O que importa é que, a partir daquele momento, suicídio entrou na lista de assuntos que despertam o meu interesse.

    Muitas pessoas torcem o nariz quando o tema é morte e/ou suicídio. Algumas vão dizer “Deus me livre” e cortar o assunto, outras vão fazer careta e sair de perto. Nunca foi meu caso. Pensar na morte era tão natural quanto respirar e querer morrer não era mais do que um sintoma de estar viva. E eu realmente acreditava – e, de certa forma, continuo acreditando – que se falássemos mais sobre isso seria muito mais fácil diferenciar um “tive um dia péssimo, queria estar morta” de um “comprei três caixas de paracetamol e estou pensando em me matar”. Mas eu também acreditava que, se eu chegasse nesse ponto, seria mais fácil pedir ajuda. Afinal, uma pessoa que não tem problemas em falar sobre morte não vai ter problemas em procurar ajuda psicológica/psiquiátrica no momento de dificuldade, certo? Bom, não. Nada certo.

    Foto por @yanots

    Aos dezoito anos, comecei a ter alguns sinais de que as coisas não estavam indo tão bem. Alguns choros injustificados, tristeza e desânimo. As vezes piorava, mas não chegavam a ser ruim em um nível que me preocupasse. Estar mal é normal, acontece. Aos vinte, comecei a trabalhar em um lugar... pesado. Um lugar com um número de eventos estressores bem maiores que o normal (ou que o necessário). Os sintomas pioraram, ficaram mais frequentes, evoluíram. Medo de sair de casa com os amigos, medo de esquecer a senha do cartão e atrasar toda a fila do caixa, ataques de pânico, compulsão alimentar, ideação suicida.

    Demorei quase um ano para procurar ajuda psicológica e nem vou entrar no mérito da intervenção psiquiátrica porque ainda não estou bem resolvida com isso. O fato é que eu não acreditava que tinha depressão, nem que ansiedade fosse uma questão, muito menos que procurar métodos de cometer suicídio na internet e considerar comprar alguns itens eram comportamentos problemáticos para alguém que gostava tanto do tema. E sabe por quê? Porque eu não perdi peso, ganhei peso. Não tinha insônia, nem dificuldade para dormir. Na verdade, eu dormia em qualquer lugar, em qualquer horário, em qualquer posição. Porque por mais que eu não gostasse de acordar, eu conseguia levantar da cama, tomar banho e ir trabalhar. Porque o choro compulsivo fora de hora e sem motivo era apenas sintoma da TPM, a perda de interesse e a falta de vontade de fazer qualquer coisa eram preguiça, a irritabilidade era da minha personalidade.

    Doenças e transtornos de ordem psíquica são como doenças e transtornos físicos: os sintomas variam. Você chega no hospital com dor de cabeça: pode ser um simples resfriado, pode ser enxaqueca ou pode ser um derrame cerebral. Óbvio que existem estereótipos e sintomas mais comuns, mas tê-los não te faz estar doente, da mesma forma que não os ter não te isenta dessa condição. Os sintomas são tão variados, específicos e concomitantes que alguns psicólogos não gostam de trabalhar com diagnóstico. O tratamento é tão específico que algumas pessoas ficam em tratamento psiquiátrico por anos até encontrar um remédio que se adeque ao seu organismo e suas necessidades.

    Se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Quadrinho por @cartumante

    O setembro amarelo é uma campanha brasileira para a prevenção do suicídio. O intuito da campanha é promover discussões e conscientizar a população acerca da importância dessa discussão. Por ano, 12 mil pessoas tiram sua própria vida e estima-se que mais de 96% dos casos estejam ligados a algum tipo de transtorno mental (os dados são do site oficial da campanha). É um assunto sério, é uma questão de saúde pública. Um problema dessa magnitude não vai ser resolvido em uma conversa pelo chat do Facebook, não vai ser resolvido com um abraço ou com um café. Cada ano que passa eu vejo mais e mais pessoas se disponibilizando para "ouvir desabafos" e para "conversar" sobre transtornos mentais. Quando vejo isso, só consigo pensar nesse quadrinho que a @cartumante sabiamente criou. Repito a pergunta: se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Esse post não está aqui para dizer que você não deve ajudar seu amigo/colega que está passando por uma situação difícil, mas existem formas de ajudar. Se alguém te procura para desabafar e você percebe que não é um simples desabafo, que aquela pessoa pode ter sintomas de depressão ou de algum transtorno de ordem psíquica, estimule-a a buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Sua tentativa de solucionar o problema sem a ajuda desses profissionais pode acabar piorando a situação ou postergando a procura por ajuda adequada, como aconteceu comigo. Lembro de ter uma dessas conversas de "pode desabafar comigo" durante uma crise de ansiedade que acabou desencadeando em uma série de eventos dos quais me envergonho até hoje. Mesmo assim, tive muita sorte: pagar um mico era a coisa mais leve que podia ter saído dessa conversa.

    Se você conhece alguém que está tendo idealizações suicidas, incentive-o a buscar ajuda especializada. Nesse link você encontra todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV). Eles atendem por chat, telefone (ligação gratuita), e-mail e presencialmente (infelizmente nem todas as cidades possuem postos de atendimento. Consulte o mais próximo de você aqui).

    Se você precisa de atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, a @pseudoruiva_ fez uma theread muito bacana com os contatos de clínicas populares que oferecem atendimento gratuito.

    Se você precisa de atendimento psiquiátrico gratuito, o SUS disponibiliza esse atendimento através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Esse serviço ocorre em diversas modalidades de atendimento, portanto é indicado que você procure o Núcleo de Apoio à Saúde da Família da sua cidade para que eles realizem o encaminhamento para o CAP adequado.

    Se você quer ajudar com a campanha Setembro Amarelo, o site oficial da campanha disponibiliza uma cartilha e posters que você pode imprimir e distribuir por aí. Eles também tem modelos de posts para redes sociais. 
    . 13 agosto 2019 .

    Há exatos três anos, no dia 24 de agosto de 2016, eu fiz minha primeira publicação no meu antigo blog, o LAPSOS. O fato de essa coincidência não ter sido planejado me deixou reflexiva - ultimamente, eu tenho refletido muito sobre coisas que antes julgava simples, banais e corriqueiras. Eu escrevo em blog desde... desde sempre. Não consigo me lembrar muito bem do ano exato, mas meu primeiro cantinho na internet tinha endereço .zip.net, era hospedado em um host da UOL que não existe mais e, para acessá-lo eu usava meu e-mail @oi.com.br. Minha internet era discada, eu fazia buscas no Cadê (um serviço de busca brasileiro que foi comprado pelo Yahoo!) e meu blog preferido era o Blog da Dê, uma menina que morava em São Paulo e compartilhava prints de jogos de maquiagem. 

    Sempre fico nostálgica quando falo sobre blogs porque eles sempre fizeram parte da minha vida. E junto com eles sempre existiu essa vontade de pertencer a um grupo de pessoas que compartilham a vida na internet. Para o meu azar, participar e pertencer são coisas muito diferentes. Eu sempre participei desse mundo: trocava selos de awards feitos no glitterfy, deixava comentários, escrevia longos textos sobre o quão era difícil ser adolescente, resenhava livros, participava de grupos de blogagem coletiva. Mas eu não pertencia.


    Em meados de 2005, não pertencia porque minha internet não era rápida o suficiente para carregar todos aqueles gifs. Em 2008, porque meu computador não tinha photoshop para fazer layouts com brushes e pngs transparentes. Em 2011, meus dramas adolescentes não eram tão legais quanto os das meninas que saiam escondidas para ir em festas. Em 2013, não tinha visualizações e comentários suficientes para ser digna de nota. Em 2016, meu conteúdo não era autêntico o suficiente para participar da blogosfera old schol.

    Sempre ficava ali, à margem. E, pensando sobre isso agora, percebo que talvez essa seja a razão pela qual eu precise recomeçar de tempos em tempos. Cada uma dessas tendências representa uma oportunidade que tive de me adequar, assim como cada um dos meus blogs representa uma tentativa vã de sentar na mesa dos populares (ou dos desajustados orgulhosos) durante o almoço. Não conseguir alcançar um objetivo pode ser frustrante, mas quando esse objetivo ganha uma conotação subjetiva desproporcional, a coisa extrapola a frustração e se transforma em fracasso.

    E o fracasso... bom, o fracasso fede. E não adianta esfregar. O cheiro dele não sai do seu corpo desse jeito.

    Foto por @fotografierende
    Mas a vida continua, certo?

    Conforme o tempo foi passando, o meu apreço pelo mundo dos blogs e o sonho de ser a nova Agatha Christie se transformaram em objetivos mais concretos - como arrumar um emprego, ganhar um salário, parar de viver as custas dos meus pais e pagar meus boletos. Assim como a Tati e a Manu já pontuaram muito bem (tanto que senti que elas tinham arrancados os sentimentos de dentro de mim e colocado na tela do computador), o fato de eu não ter me enveredado por uma profissão ligada a escrita fez com que minha relação com ela desandasse.

    Como num casamento, a escrita e eu passamos por várias crises. Primeiro, com a falta de tempo e o sentimento de não ser boa o suficiente. Depois, com o mestrado e a imposição da escrita científica - e aí coisa desandou de vez. Passei meses olhando para a tela em branco. Das primeiras três páginas de rascunho do meu projeto de qualificação, apenas dois parágrafos ficaram intocados - não por estarem bem escritos, mas porque minha orientadora não teve tempo para ler tudo. A folha em branco no word (em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5) não só me encarava, mas me assombrava. O medo me travou. A menina que foi desclassificada da olimpíada de redação por "escrever demais" começou a desconfiar que nunca tinha sido alfabetizada.

    Mas desapegar é difícil. Mesmo com as crises, problemas e traumas, o apego e o amor ainda estão lá. Assim como os noivos jogam os votos um na cara do outro "até que a morte os separe", eu me vejo olhando para a pequena Natália que viveu seus melhores momentos em meio a palavras (lidas e escritas) e não consigo deixá-la para trás. Não consigo dizer para ela que é o fim, que o ensino médio terminou, que a vida adulta exige sacrifícios e que, de qualquer forma, a mesa dos populares era só uma metáfora.

    Ainda sobre metáforas, me vejo como o dilema do porco espinho, de Schopenhauer: ficar perto da escrita me machuca, mas se eu me afastar demais estarei fada à morte. Não literalmente, claro, mas acho que exemplo ilustra bem. Eu preciso escrever. E mesmo que eu nunca consiga pertencer ao mundo dos blogs, a escrita faz com que eu pertença a mim mesma. Não é muito, mas, por hora, é o bastante.

    We live in the shadows and 
    we had the chance and threw it away 
    and it's never going to be the same
    'cause the years are falling by like the rain 
    it's never gonna be the same 
    'til the life I knew comes to my house and says 
    hello
    . 16 outubro 2017 .

    Um pombo nunca cagou em mim.

    Nos primeiros anos do ensino fundamental era comum alguém faltar ou chegar atrasado na aula porque foi atacado por um cocô de pombo. Depois disso, já no ensino médio, lembro desse assunto vir à tona e as pessoas comentarem suas histórias e os transtornos que "o ocorrido" gerou: perdi uma prova, cheguei atrasado no curso, perdemos o casamento da minha prima. No meu primeiro emprego, conheci uma menina que sofreu três ataques na mesma rua em menos de um ano - inclusive, a gente passava nessa rua todos os dias.

    E eu só ouvia as histórias, calada.

    imagem por @lulithebunny

    Sei que deveria me sentir sortuda por nunca ter passado por isso, mas, na minha cabeça, é uma questão de probabilidade. A probabilidade de alguém encontrar um trevo de quatro folhas é uma em dez mil. Mas, se eu sou uma pessoa que planta cem trevos por dia, a cada dia que passa estou mais próxima de encontrar esse trevo.

    Faz sentido? Na minha cabeça faz.

    Ando no meio dos pombos de segunda a sábado, pelo menos duas vezes no dia, desde 2009. Oito anos, cerca de trezentos e doze dias por ano, pelo menos duas vezes no dia: são quase CINCO MIL contatos diretos com pombos. Isso sem contar as vezes em que saí pra almoçar (ida e volta, mais dois contatos por dia) ou em que tive que andar várias vezes na frente da mesma pastelaria (por que os pombos amam pastelarias? Fica o questionamento) ou dias anteriores a 2009 em que tive que sair fora daquela rotina casa-escola, escola-casa.

    A possibilidade de um pombo cagar na minha cabeça amanhã é iminente.

    Posso ser uma vítima A QUALQUER MOMENTO.

    Isso fez com que eu ficasse paranoica sobre pombos. Fujo deles como o diabo foge da cruz: atravesso ruas, mudo trajetos, tenho toda uma restrição sobre pastelarias. Pra piorar a paranoia, acabei de descobrir que o tal cocô "pode provocar micoses e problemas respiratórios semelhantes à meningite, como histoplasmose e criptococose ou a clamidiose (bactéria), que causa sintomas variados, de febre à problemas na respiração" (de acordo com uma fonte ~confiabilíssima~ que é o R7).

    O que os pombos pensam sobre a minha paranoia? Provavelmente, algo similar à isso:

    . 13 maio 2017 .


    Eu estava tentando convencer meus pais a adotarmos um bichinho de estimação há anos, mas minha mãe tinha um milhão de motivos pra isso não acontecer. Sugeri um cachorro, depois um gato, um porquinho da índia, um coelho... Quando me dei conta, até tartaruga de aquário já tinha entrado na lista. Fiquei nesse jogo até o dia em que meu pai e eu decidimos começar uma rebelião silenciosa. Foi assim que, há exatos 15 dias, ele chegou lá em casa com a maior cara de quem não quer nada e uma caixinha de papelão cheia de furinhos debaixo do braço.

    Difícil saber quem estava mais confusa, a gatinha que saiu dessa caixa ou eu. Lá em casa nós já tivemos cachorros, passarinhos, peixes, galinhas, marrecos e até um filhote de porco (que, por motivos óbvios, ficou lá por menos de 12 horas), mas nunca tivemos um gato. Primeiro, pensamos que ela ficaria quieta dentro da caixa de papelão como um filhote de cachorro - doce ilusão. Depois, houve uma discussão pra saber se deveríamos comprar areia normal ou areia específica pra higiene de gatos. No dia seguinte, quando a levei ao veterinário, descobri que ela não era cinza como pensávamos, mas sim branca. Não faltou dúvida, surpresa, confusões e descobertas (essa frase ficou digna do narrador da Sessão da Tarde, mas juro juradinho que foi bem assim).

    "Me jogaram na água, tiraram meu sangue e ainda me marcaram com esse laço horroroso, isso aqui é o inferno"  - Berenice, inconformada com a primeira ida ao veterinário

    Ainda estamos nos acostumando com as manias uma da outra. Agora já sei diferenciar um miado de necessidade de um miado de manha - ou um miado comum. Já sei que ela gosta mais do Whiskas de atum do que do de frango, que prefere brincar com um pedaço de papel aos brinquedos que comprei, que gosta de carinho na cabeça e que tem a péssima mania de se esconder em lugares inimagináveis e me matar de preocupação.

    Tem várias coisas que ninguém te conta sobre ter um gato. Os pelos vão passar a fazer parte das suas roupas pretas, seus pulsos vão ficar frequentemente arranhados (Berenice acha que pode me escalar como seu eu fosse uma pilha de roupas), você vai querer vomitar toda vez que abrir um pacote de Whiskas - e vai se sentir culpada por não dar o alimento mais gostoso pro seu bichinho só pra não ter que sentir esse cheio horrível. 

    Berenice, explorando o quintal.

    Mas também vai morrer de rir quando ele decidir brincar com uma bolinha, morrer de fofura quando ele ronronar pela primeira vez e vai ficar viciada em fazê-lo ronronar sempre. Descobrir curiosidades sobre gatos vai ser seu passatempo mais divertido e engraçado da vida, assim como tentar entender como um coco tão fedido e gigante pode sair de uma coisinha tão fofinha e pequena. Seu cartão de crédito vai ter várias dividas de brinquedos que você comprou, mesmo sabendo que seu gatinho gosta mesmo é das coisas mais simples, como caixas, pedaços de papel e gravetos. Você vai se sentir como o Caillou na abertura do desenho, cantando que “cada dia na vida é uma nova surpresa”. 

    Seja bem vinda, Berenice. 
    . 07 novembro 2016 .

    Minha primeira vez em um velório foi quando minha tia morreu. Eu tinha 5 anos e perguntei pra minha mãe porque o telefone não parava de tocar. Quando ela tentou me explicar o que era a morte, eu disse pra ela que "é quando a pessoa dorme e não acorda mais", simples assim. Lembro que nesse dia meu pai mal tinha chegado em casa (ele trabalhava de madrugada) e já tinha saído. Lembro que não fui à aula e que comi batata frita em um restaurante perto do velório. Lembro que eu e meu primo brincamos de jogar aviõezinhos de papel e eu quase acertei o olho da minha mãe com um deles. Lembro que eles serviram café naqueles copinhos de plástico e que tinha um suporte marrom muito bonito nos copinhos e que, até pouco tempo, uma das minhas tias ainda guardava alguns no armário da cozinha dela. Lembro do meu pai ajudando a carregar o caixão e da quantidade de pessoas no cemitério. Lembro que tinha muito vermelho na minha tia: roupa vermelha, batom vermelho, unha vermelha. Aparentemente, era a cor preferida dela.

    Funny, isn't it? The way memory works. The things you can't quite remember, and the things you can never forget.
    - Grey's Anatomy

    Quando meu avô morreu, eu não sei...

    Na verdade, é simples assim: eu não sei.

    Nunca fui uma neta presente pra ele e ele nunca foi o tipo de avô que te senta no colo e conta uma história legal. Eu nem me sinto no direito de ficar abalada com a morte dele porque, na real, não vai ter nenhuma diferença na minha rotina. Eu passava anos sem vê-lo e quando via, mal falava com ele. Sei que parece insensível, mas é a verdade.

    Sem contar que é um grande sacanagem com quem convivia com ele. Imagina, eu chego lá e começo a chorar e soluçar mais do que meus primos que viam ele pelo menos uma vez na semana, que ajudaram a cuidar dele quando ele estava doente, que sabiam dos hábitos dele e conheciam as roupas que ele usava. Não é justo. Eu não queria dar um show.

    Além de tudo isso, sou 100% contra velórios. Não vejo sentido algum em passar maquiagem numa pessoa morta e passar horas do lado dela. Aliás, não do lado dela, do lado do corpo dela, porque o que fazia a pessoa ser quem ela era já não está mais ali. Para ser sincera, eu até acho nojento quando as pessoas ficam passando a mão naquele corpo morto. Não gosto de ter contato físico com pessoas com quem tenho pouca intimidade e fico imaginando que, se eu morrer, um monte de gente pouco conveniente vai ficar passando a mão em mim e dizendo o quão ótima eu era (o que é uma tremenda mentira, by the way).

    Enfim, velórios só despertam sentimentos tristes e alimentam um sofrimento que já é esmagador por si só.

    Por isso, quando ele morreu e eu decidi que ia no velório, planejei apenas chegar lá e fazer cara de triste: nem tão vazia quanto a das pessoas que conheciam ele de vista e nem tão triste quando o pessoal que fazia parte da rotina dele. Imaginem vocês minha surpresa quando me vi usando uma toalha de mão para secar as lágrimas que não paravam de cair, tentando virar o rosto pro outro lado para ninguém ver e contrariando todos os meus argumentos sobre rituais estúpidos.

    imagem por @juliakadel

    Eu me peguei remoendo as poucas lembranças que eu tenho dele. Lembro que uma vez eu tive uma alergia no braço (o pessoal da roça chama de "cobreiro") e ele "cortou" (que é uma oração que o eles fazem para curar essas coisas). Lembro que uma vez pedi pra ele me ensinar a saber quando ia chover e ele disse que simplesmente sabia, que não dava para ensinar essas coisas. Também lembro que ele sempre ria quando eu fazia alguma bagunça digna de um castigo e que nunca me chamava a atenção ou gritava comigo. Lembro que quando ele ficou doente ele ria atoa de qualquer caso que você contasse, mas que também xingava todos os palavrões do mundo com uma força que parecia sair do fundo da alma. Ninguém nunca vai esbravejar um "seu fiadaputa" como meu avô fazia. Ele gostava de palavrões, tínhamos isso em comum. 

    A pior parte foi voltar pra casa e perceber o quanto a morte dele me abalou. Eu não consegui escrever uma única linha no meu TCC, tive crises de ansiedade que me fizeram querer arrancar meus dedos, minha planilha de AFO continua incompleta e desformatada e nem olhei qual matéria vai cair nas 3 provas que eu tenho essa semana. Não consegui assistir um episódio de nenhuma série sem ter que parar ou voltar nas últimas cenas porque não estava prestando atenção e se você me perguntasse qual música eu estava ouvindo eu não ia saber te responder. Minha cabeça não está comigo, ela está voando no limbo.

    E eu decidi escrever, porque sei que não importa o quanto eu finja que estou bem com esse assunto, eu não estou. A senhorita "eu não sou suscetível à essas bobagens" caiu por terra. E eu sabia que enquanto eu não escrevesse isso, esse peso não ia me deixar. É tipo a Meredith e a Cristina em Grey's Anatomy: they dance it out, I write it out.
    . 24 agosto 2016 .

    Começos.
    Começos são sempre difíceis.
    A sorte é que nem todo começo é, necessariamente, desagradável.

    A vontade de criar um blog não me é antiga. Ela já vem cozinhando na minha cabeça desde antes de eu começar a faculdade, ou antes de eu começar no meu atual emprego. Imaginei o começo várias vezes, fiz vários planos. Infelizmente, nenhum deles incluía um dia bosta. Nenhum deles incluía uma ligação desesperada pra mãe e um conselho sobre procurar um psiquiatra. Nenhum deles incluía chorar no banheiro do trabalho, nem do da faculdade. E, definitivamente, nenhum deles começava durante uma aula insuportável de Produção II.

    Minha vida decorre do erro. Ela é um conjunto de erros que acompanham bagagens pesadas e pouca força pra carregar tudo. Não existe planejamento, existe impulso. 

    Esse blog pode ser mais um dos meus erros, só mais um tópico na minha lista de planejamentos que não deram certo, mas será feito de mim. De um monte de ideias (algumas claras, outras nem tanto), um monte de neuras, frustrações, problemas, vontades e impulsos. Uma bagunça, só que com algum sentido.  

    É como diria o Park, "She never looked nice. She looked like art, and art wasn't supposed to look nice; it was supposed to make you feel something". 

    E mesmo apesar do dia bosta, e de todas as coisas lá de cima, eu não me sinto tão mal. Ok, talvez eu esteja me sentindo mal, mas não sobre isso. É muito bom começar algo que estava nos seus planos há muito tempo. É como estar afogando e conseguir subir à superfície pra tomar mais um fôlego. É provar pra si mesma que ainda tem potencial aqui, que ainda pode dar certo e que as forças ainda não se esgotaram.

    E, enquanto houver força, haverá luta.


    Lap.so
    (latim lapsus, -a, -um, particípio passado de labor, labi, deslizar, escorregar, resvalar, cair)

    adjetivo
    1. que incorreu em erro; culpado.
    substantivo masculino
    2. decurso de tempo, espaço, intervalo.
    3. erro, falta que se comete, falando ou escrevendo, por inadvertência, descuido ou falha de memória.
    4. interrupção de funcionamento normal; ausência, falta, falha.

    Atualização (18/09/2021): revisitar meus posts antigos é muito difícil porque acho todos pessimamente escritos. Esse é um excelente exemplo: um texto tão confuso e cheio de referências obscuras que, depois de cinco anos, nem eu mesma consigo entender. Ainda assim, é engraçado ver como o nome combinava com a proposta: uma falta, um erro, uma falha de memória.