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    supostamente, ela escreve

    Esse blog foi criado para que eu, Natália Oliveira, tivesse um espaço na internet para publicar meus textos. A bem da verdade, mais procrastino que escrevo, mas isso não me impede de sonhar acordada com o dia em que conseguirei escrever algo realmente bom. Sou saudosista da época dos blogs pessoais, gosto de histórias (e fofocas) e de jogos casuais. Esse blog já teve vários nomes (natalapses; natália non grata; olive trees, garnets and trains) e escrevo nesse espaço de forma inconstante desde agosto de 2016.

    Se quiser entrar em contato, basta deixar um comentário ou mandar um e-mail para mail.natalialvr@gmail.com.

    coleção de quotes – twitter – spotify – link afiliado da amazon

    Pense em William James [...] que uma vez comparou qualquer tentativa de estudar a consciência humana a acender uma lâmpada a fim de examinar melhor a escuridão.

    Por mais que Karen Thompson Walker faça referência a William James ao dizer que o ser humano é complexo e difícil de estudar, a mesma parece ter captado muito bem nossa essência ao descrever perfeitamente um cenário que, há menos de seis meses, era impensável para a maioria de nós. Se estivéssemos na época da inquisição, ela seria facilmente acusada de ser uma bruxa viajante do tempo - ouso dizer que essas acusações poderiam ser feitas atualmente, caso o povo brasileiro tivesse amplo acesso à leitura. Apesar disso, cá estamos: presos dentro de casa ou arriscando nossas vidas hoje para garantir nossas vidas amanhã - mesmo sem saber direito como será esse tal amanhã. 

    O "novo normal" já é a expressão de coach mais odiada entre os internautas e as fake news e teorias da conspiração fascinam alguns e indignam outros. Não temos muitas opções além de tentar viver um dia de cada vez e esperar pelo melhor. E era o que eu estava tentando fazer quando comecei a ler "Os sonhadores". Pensei que poderia ser melhor viver a pandemia dentro de um livro do que vivê-la na vida real. Porém a ficção era muito próxima da realidade, tão próxima que, a cada página lida, eu me sentia tentada a conferir a data de lançamento do livro (15 de janeiro de 2019) mais uma vez. 

    imagem por @saseko

    A fonte dos problemas, ao que parece, não é loucura, nem veneno, tampouco bactérias. Santa Lora está sendo assombrada por uma força nem viva nem morta: um vírus. Um até então desconhecido pela ciência.

    Confesso para vocês que fiquei muito tempo presa nesse post. Como eu já estou farta de dizer - e vocês estão fartos de ouvir - a escrita acadêmica me travou para a escrita despretensiosa e eu não consigo mais resenhar um livro sem que todas as minhas afirmações sejam embasadas em artigos científicos devidamente citados de acordo com as normas ABNT. Por isso, minha proposta nesse post não é fazer uma resenha em si, mas conversar um pouco sobre o enredo do livro e traçar alguns paralelos entre ele e a nossa realidade durante a pandemia da COVID-19.


    Livro: Os Sonhadores
    Escritora: Karen Thompson Walker
    Publicação: Esse livro foi publicado no Brasil pela TAG Inéditos em parceria como selo Alfaguara da Companhia das Letras.

    Sinopse: Uma pacta cidade nos Estados Unidos é transformada por uma misteriosa doença. Seus habitantes caem aos poucos em um sono profundo, perpétuo, e os que continuam despertos precisam aprender a seguir com a vida e a sobreviver - sem saber se irão acordar no dia seguinte. É um romance impactante, da autora do best-seller A idade dos milagres.


    A história do livro se passa na pacata Santa Lora: cidade pequena, cercada por uma floresta propícia a incêndios e banhada por um rio que enfrenta uma de suas piores secas. Em um dia comum, Mei percebe que sua colega de quarto está dormindo há tempo demais e resolve chamar por ajuda. Quando os paramédicos chegam, percebem que a menina está apenas dormindo, com os sinais estáveis e uma atividade cerebral intensa. No entanto, por mais que tentem, não conseguem fazê-la acordar. A partir daí, a epidemia se estende por toda a cidade, fazendo com que as pessoas caiam em um sono súbito, profundo e... interminável? Os cientistas tentam entender a doença, enquanto os doentes correm o risco de morrer por desidratação caso não sejam hospitalizados.

    A autora opta por contar a história através do ponto de vista de vários personagens: um casal com uma bebê recém nascida, um pai paranoico que desconfiava das instituições (inclusive hospitais) e que tenta proteger as filhas a todo custo, uma adolescente grávida, um homem que morava sozinho, uma pessoa mentalmente debilitada em uma casa de repouso, uma caloura tímida da universidade que estava longe da família pela primeira vez. Cada um deles tem uma forma diferente de reagir à epidemia: preocupações diferentes, necessidades específicas. Se os pais ficassem doentes, quem cuidaria da bebê? Se a caloura morresse, quem contaria a seus pais? Se o homem que morava sozinho caísse em sono profundo, alguém descobriria à tempo de levá-lo para o hospital ou ele morreria desidratado? Será que a doença interfere na gestação da adolescente? Se sim, como? 

    O mais interessante é pensar que uma professora de escrita criativa teve sensibilidade para considerar todos esses cenários e empatia suficiente para se colocar no lugar de cada uma dessas pessoas (inclusive as crianças) e perceber a complexidade da situação cada uma. Sensibilidade que os governantes do nosso país parecem não ter. Aqueles que pretendem fazer algo concreto para ajudar as pessoas mais necessitadas não têm dimensão das diversas realidades que compõe o nosso país, optando por saídas universalizadas, pouco efetivas e que ignoram as particularidades de cada um. No entanto, esse não é o nosso maior problema, visto que ainda existe um grupo de políticos que preferem usar a doença como ferramenta de genocídio, aproveitando-se da falta de infraestrutura e das necessidades do povo mais vulnerável para exterminá-los.

    Os capítulos 16 e 38 se sobressaem na narrativa por contar como as pessoas que estavam fora da cidade reagiram às notícias sobre o vírus. Infelizmente, não posso reproduzir esses dois capítulos na íntegra, mas deixo aqui alguns trechos que explicam muito bem a ideia geral que eles carregam: 

    Capítulo 16

    A essa altura, certas teorias alternativas começam a circular on-line. É o governo, dizem. Ou são as Grandes Corporações Farmacêuticas. Algum tipo de germe deve ter escapado de um laboratório da faculdade [...] O talvez não haja doença nenhuma [...] Talvez, alguns começam a dizer, Santa Lora não seja nem mesmo uma cidade real [...] Todas essas imagens quem sabe estão sendo geradas e transmitidas em alguma sala de edição no vale [...] E quem você acha que paga o salário os salários desses chamados "jornalistas" que informam todas essas notícias faltas?

     

    Capítulo 38

    Uma nova hashtag começa a figurar entre os tópicos mais comentados das redes sociais: #FarsaSantaLora [...] É isso que se trata de fato: uma desculpa para o governo assumir o controle [...] Pode ser a Rússia que esteja por trás disso, ou a Coreia do Norte[...] E vocês já ouviram os últimos números? Mil e quinhentos casos em seis semanas? Calma aí, nada se espalha tão rápido.

    Soa familiar? As narrativas e conspirações se sobressaem em detrimento da ciência, servindo a grupos de interesse específicos ou apenas se aproveitando da dificuldade que as pessoas têm de encarar a realidade. Enquanto todos esses boatos tomam o país, um grupo de cientistas de várias áreas se concentram em tentar descobrir como a doença funciona e se existe uma cura. Os profissionais da saúde sentem medo frente ao risco de contaminar seus entes queridos e, aos poucos, acabam sendo infectados e se transformam em pacientes. É estranho pensar que quando a COVID-19 não era uma possibilidade plausível, uma pessoa foi capaz de descrever as reações e desdobramentos de uma epidemia com perfeição, desde a descrença (ou excesso de crença) até os riscos aos quais os profissionais da saúde estão submetidos. 

    Durante a leitura, não pude evitar me sentir muito inocente (para não dizer burra). Para mim, todos os empecilhos que estamos vivendo frente à pandemia eram caóticos, extremos e inimagináveis: quem em pleno uso das faculdades mentais vai negar uma doença que tem o potencial de tirar milhões de vidas? Que tipo de pessoa se preocupa mais com festas, cortes de cabelo e manicure do que com a vida das pessoas? As pessoas realmente preferem acreditar em boatos do que nos estudos científicos?  Vão continuar a vida como se nada estivesse acontecendo? Aparentemente, olhando o problema de fora e encarando-o como uma possibilidade (e não como realidade caótica em que vivemos), essas reações sempre foram factíveis.

    Essa cidade, esses vizinhos que andam com seus cachorros nas ruas - não parece um lugar que nesse momento sente os efeitos de uma peste. É possível extrair um bocado de conforto a partir da normalidade dos outros - se uma epidemia estivesse de fato se espalhando, os vizinhos estariam limpando as folhas caídas nos gramados? O carteiro estaria entregando folhetos?

    Quanto à leitura em si, considerei que ler um livro sobre epidemia durante uma pandemia talvez não fosse a melhor das decisões. No entanto, me surpreendi. O livro prendeu a minha atenção, a leitura não foi custosa e, para o momento em que eu estava (e no estado emocional/psicológico em que eu estava) serviu como uma espécie de acalento. Acompanhar o decorrer dos fatos em Santa Lora fez com que eu me distanciasse um pouco da nossa situação real - o que pode ser bom, porque as notícias pararam de me fazer tão mal, mas também pode ser ruim, porque eu fiquei um pouco mais fria com relação à pandemia. Do meio para o final do livro, a autora dá um tom de magia à doença que, ao meu ver, foi desnecessário e tirou um pouco da seriedade da história. 

    Confesso que eu não teria me interessado tanto pela narrativa se estivéssemos em um contexto diferente. Não vou recomendar o livro por dois motivos. (1) Sei que essa narrativa pode desencadear reações negativas e a sua experiência de leitura pode ser muito diferente da minha. Se você decidir ler, vá com cuidado e respeite seu tempo (e sua cabeça). (2) Esse livro foi enviado pela TAG Inéditos no kit do mês de abril. A TAG costuma vender kits passados em sua loja online, mas o kit desse livro estava esgotado na última vez em que consultei. Ademais, eu estou meio brigada com a TAG por causa do atendimento deles (péssimo) e da qualidade dos produtos (já recebi dois kits com o box descolando e, pelo preço que eles cobram, isso super não deveria acontecer). Seria incoerente da minha parte recomendar a leitura de um material que não está facilmente disponível. Talvez a Companhia das Letras lance o livro em breve, mas, até onde eu pude pesquisar, não existe previsão para que isso aconteça.
    . 29 junho 2020 .
    . 07 junho 2020 .

    É, eu sei. Você deve estar pensando "sério, Natália? Insetos?". Pois é, insetos. 

    Tenho a mania de tirar fotos de coisas aleatórias em ângulos estranhos e depois jogar um monte de filtros e efeitos na edição para ver no que aquilo vai dar - um passatempo inútil, já que eu nunca dediquei meu tempo a estudar fotografia e, como você vai perceber nesse post, não tenho talento natural para a coisa. Uma das coisas que costumo fotografar são insetos. Antes de me julgar, saiba que insetos são bonitinhos, sim! Tudo bem, eles podem ser assustadores e chatos, mas eles também podem ter asas e anteninhas extremamente detalhadas, com padrões de disposição superinteressantes. As pessoas só têm dificuldade em perceber esses detalhes. Talvez isso aconteça porque os insetos costumam se mover rápido demais e/ou perto demais da sua cara.  Ou talvez porque eles têm o péssimo hábito de tentar se aproveitar da sua comida. Ou porque eles podem causar alergias em algumas pessoas. Ou porque alguns transmitem doenças... enfim!

    Em minha defesa, deixo registrado que eu estava preparando um post gigantesco sobre a discografia da minha banda preferida quando a vida aconteceu e minha saúde mental pediu socorro novamente. Eu gostaria muito de dar uma pausa para me recuperar desse break down, mas já tive break downs demais e tenho um mestrado para terminar. Antes que esse espaço se tornasse mais um dos meus projetos abandonados mais uma vez, resolvi colocar essas fotos aqui. 

    Recebam com carinho (e um pouquinho de compreensão), ok?



    No início da quarentena, Manu e eu tivemos a ideia de fazer um desafio fotográfico informal. A ideia era manter o hobbie e não surtar, mas, como vocês podem ver, não deu muito certo. Um dos temas que definimos para o desafio foi "detalhes", então eu decidi tirar uma foto desse insetinho bonitinho com detalhes vermelhinhos que estava do lado de fora da minha janela e dessa joaninha simpática que estava passeando pela minha cortina. 


    Mais ou menos na mesma época desse desafio, eu fiquei um pouco perdida nas minhas tarefas. A quarentena me causou um probleminha de percepção da passagem do tempo que minha psicóloga chamou de dissociação. Bom, o que eu fiz para tentar melhorar? Uma lista dos meus afazeres? Grandes cruzes vermelhas em um calendário para marcar a passagem do tempo? Contratei um coach? Nada disso! Aproveitei que esse inseto grandão resolveu descansar em uma parede branca aqui de casa e fiz uma sessão fotográfica com ele. Ao todo foram 37 fotos e essa foi a minha preferida.



    Meu pai costuma ser levemente desleixado com o jardim aqui de casa. Ele plantou uma flor vermelha que se parece muito com bico-de-papagaio e ela cresceu bem mais do que o esperado - hoje ela está bem mais alta do que eu (o que não é lá grande coisa porque eu não sou uma pessoa alta, mas, ainda assim, muito para uma flor de jardim). Meu pai não quer cortar a planta porque acha ela bonita do jeito que está e no fim de semana passado eu reparei que ela está servindo de lar para um monte de insetos. Resolvi me meter no meio das plantas para tentar fotografar alguns. Não achei que as fotos ficaram boas e foi bem chatinho tentar ajustar as cores - tanto que deixei a última em preto e branco.

    INÍCIO DE UM SONHO / DEU TUDO ERRADO


    A maior dificuldade que eu tenho ao tentar tirar fotos de insetos é o tamanho deles. A maioria deles é muito pequena e eu fico com medo de chegar a câmera perto demais e acabar espantando eles para longe. O zoom do celular é péssimo e nas poucas vezes em que tentei sair correndo para pegar a câmera (que tem um zoom bem mais decente) o inseto foi embora e eu fiquei lamentando. As últimas fotos desse post são justamente essas fotos que deram errado - não que as outras tenham dado super certo, mas essas certamente ficaram piores.

    Uma das coisas que eu tento fazer para não perder o registro é aplicar um monte de efeitos de luz para dar aquela impressão de "estou nos anos 90 e, ops, acabei queimando a borda dessa foto na hora de revelar o filme" ou de "ops, bati uma foto analógica fora de foco".

    Essa abelha saiu voando bem na hora em que eu tentei tirar a foto.
    Uma mariposa na janela em um dia de chuva seria bem mais poético se eu conseguisse focar na mariposa

    E esses foram os insetos que me fizeram companhia na quarentena. A quem interessar possa, todas as fotos foram tiradas com a câmera do MI 9 SE da Xiaomi (aquela marca que faz coisas muito melhores e mais baratas do que as outras marcas), com exceção da sessão fotográfica do inseto grandão, que foi feita com uma Canon SX 520 HS. Por que eu não peguei a câmera para tirar foto com um zoom decente dos insetos pequenos, mas peguei para tirar fotos de um inseto grande? Sei lá, sou doida.

    Você pode me mandar um "puta que pariu, que post mais bosta" lá no twitter.
    . 30 maio 2020 .

    Tudo o que eu escrevo é sobre escrever.

    Se você me acompanhava finado blog LAPSOS, me segue no twitter (aka melhor e pior rede social do mundo) ou já prestigiou uma das minhas tentativas fracassadas de começar uma newsletter, sabe que a escrita tem sido um grande fardo para mim. A menina que era reconhecida por escrever bem decidiu entrar em um mestrado e toda a sua confiança foi sugada pelo monstro do mundo acadêmico. Desde então, as crises se acumulam no meu colo: crises de identidade, crises de ansiedade, crises criativas, crises existenciais e, óbvio, a crise da escrita.

    Toda nova tentativa que eu faço de voltar a escrever com prazer começa com um monólogo existencial sobre essa briga eterna entre a escrita e eu. E eu imagino que você que tem acompanhado todas as minhas lamúrias - e até mesmo você que acabou de cair de paraquedas por aqui -  pode estar se perguntando "menina, se isso é tão difícil para você, se você já tentou tanto e se isso está te fazendo mal há tanto tempo, por que você não desiste? Por que não esquece isso, deixa de lado, para de forçar e começa a viver uma vida mais leve?". 

    Essa pergunta tem mais de uma resposta, mas a principal delas é: não consigo. Não consigo abrir mão da escrita porque escrevo mesmo sem escrever. Esse texto, por exemplo, já foi escrito na minha cabeça dezenas de vezes: enquanto eu tomava banho, lavava a louça, rolava na cama esperando o sono vir... Em inúmeras situações minha cabeça liga o modo "escrita" e começa a escrever. 

    Consigo diferenciar os pensamentos normais dos pensamentos de escrita porque, como a boa mineira que sou, tenho o hábito de falar e pensar engolindo as palavras. Enquanto os pensamentos normais soam como "tenque pegá os trem e botána sacola puquê o lixero vai passamanhã", os pensamentos de escrita são algo do tipo "os objetos jogados na sacola e a sacola jogada sobre ao chão. Amanhã estarão jogados em outro lugar, dando fim a seu ciclo de serventia descartável". Além disso, os pensamentos de escrita são editáveis, posso voltar e trocar "serventia" por "utilidade", inverter a ordem das frases, transformar tudo em um diálogo, mudar as pontuações. 

    Os pensamentos de escrita ecoam na minha cabeça, mas raramente passam para o papel (ou para a tela do computador, você entendeu).

    O mais frustrante sobre isso tudo é que eu poderia lotar uma biblioteca com todos os textos que não escrevi. Se eu começasse a escrever assim que os pensamentos de escrita invadissem a minha imaginação, Stephen King não seria ninguém na fila da produtividade. Mas eu não começo, não escrevo. Anoto uma coisa aqui e ali e juro para mim mesma que vou voltar nessas anotações e transformar aquilo tudo em um texto brilhante, mas procrastino essas palavras para sempre. Continuo sendo uma escritora assídua no mundo de faz de conta que existe na minha cabeça e uma grande vagabunda fracassada no mundo real.

    imagem por @tanyatrukyr

    Ah, e ainda temos uma cereja para colocar nesse bolo: a COVID-19.

    Esse post está sendo publicado no meio de uma pandemia (meio, risos, quem dera fosse o meio...). Meus pensamentos de escrita as vezes me carregam para cenários distópicos e, como sempre tive uma tendência a ser fatalista, sempre fui capaz de imaginar crimes em massa, guerras, crises econômicas catastróficas e desastres naturais de grande porte. Mas nem no auge da minha criatividade eu seria capaz imaginar que isso tudo viria junto com uma pandemia, um presidente genocida e um grupo de lunáticos que pedem a publicação de um novo AI 5 em nome da liberdade de expressão. É, eu sei. Nada é tão ruim que não possa ficar pior. 

    Enfim, no meio desse caos interno e externo, percebi que nunca vou conseguir terminar minha dissertação se não voltar a ter prazer em expulsar as palavras do meu cérebro e obrigá-las a ir para o mundo. Além disso, vejo certa beleza em começar algo no meio de uma pandemia. É como olhar na cara da morte enquanto fim e soprar a vida em forma de início - não por amor a vida em si, porque isso não faz meu tipo, mas por amor a "ser do contra".

    Essa é a tentativa número 1319 de voltar a escrever com prazer. Sejam bem vindos.

    Para ler mais reclamações, você pode me seguir no twitter.
    . 26 setembro 2019 .

    Antes tarde do que nunca, esse é um post sobre setembro amarelo. Antes de lê-lo, você deve ter em mente que:

    • vou falar sobre episódios depressivos, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e ideação suicida. Esses assuntos podem ser gatilhos, principalmente para quem não está em um momento legal. Se esse é seu caso, recomendo fortemente que não leia esse texto e que procure ajuda. Aqui tem todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV) e nessa thread tem o contato de algumas clínicas populares que fazem atendimentos gratuitos (ou mediante pagamentos simbólicos). Não deixe de procurar ajuda, tá bem? 
    • não sou profissional da saúde e não tenho formação na área. Tudo o que está escrito aqui advém da minha experiência e da minha percepção. Não são verdades absolutas, não são parâmetros para autodiagnostico (nada deveria ser, se você pensar bem) e não são regras universais. Se você identificar alguma coisa nesse texto que esteja esdruxulamente errado, me manda uma mensagem para que eu possa colocar uma errata no post, ok?

    A memória mais antiga que eu tenho com relação à saúde mental advém do início dos anos 2000, quando estava na segunda série. Uma amiga e eu estávamos criando nossas assinaturas, porque era muito adulto ter uma assinatura e saber fazer ela igualzinha todas as vezes. Lembro de estar sentada na frente da TV, praticando incessantemente minha nova assinatura, quando ouvi uma moça dizer que as pessoas que faziam “forcas” no final da assinatura tendiam a cometer suicídio. Olhei para todas aquelas folhas com garranchos rabiscados e a única coisa comum a todos aqueles rabiscos era a “forca” no final. Talvez tudo tenha começado aí, talvez seja uma daquelas coisas latentes que se manifestam na nossa personalidade mais cedo ou mais tarde, não importa muito agora. O que importa é que, a partir daquele momento, suicídio entrou na lista de assuntos que despertam o meu interesse.

    Muitas pessoas torcem o nariz quando o tema é morte e/ou suicídio. Algumas vão dizer “Deus me livre” e cortar o assunto, outras vão fazer careta e sair de perto. Nunca foi meu caso. Pensar na morte era tão natural quanto respirar e querer morrer não era mais do que um sintoma de estar viva. E eu realmente acreditava – e, de certa forma, continuo acreditando – que se falássemos mais sobre isso seria muito mais fácil diferenciar um “tive um dia péssimo, queria estar morta” de um “comprei três caixas de paracetamol e estou pensando em me matar”. Mas eu também acreditava que, se eu chegasse nesse ponto, seria mais fácil pedir ajuda. Afinal, uma pessoa que não tem problemas em falar sobre morte não vai ter problemas em procurar ajuda psicológica/psiquiátrica no momento de dificuldade, certo? Bom, não. Nada certo.

    Foto por @yanots

    Aos dezoito anos, comecei a ter alguns sinais de que as coisas não estavam indo tão bem. Alguns choros injustificados, tristeza e desânimo. As vezes piorava, mas não chegavam a ser ruim em um nível que me preocupasse. Estar mal é normal, acontece. Aos vinte, comecei a trabalhar em um lugar... pesado. Um lugar com um número de eventos estressores bem maiores que o normal (ou que o necessário). Os sintomas pioraram, ficaram mais frequentes, evoluíram. Medo de sair de casa com os amigos, medo de esquecer a senha do cartão e atrasar toda a fila do caixa, ataques de pânico, compulsão alimentar, ideação suicida.

    Demorei quase um ano para procurar ajuda psicológica e nem vou entrar no mérito da intervenção psiquiátrica porque ainda não estou bem resolvida com isso. O fato é que eu não acreditava que tinha depressão, nem que ansiedade fosse uma questão, muito menos que procurar métodos de cometer suicídio na internet e considerar comprar alguns itens eram comportamentos problemáticos para alguém que gostava tanto do tema. E sabe por quê? Porque eu não perdi peso, ganhei peso. Não tinha insônia, nem dificuldade para dormir. Na verdade, eu dormia em qualquer lugar, em qualquer horário, em qualquer posição. Porque por mais que eu não gostasse de acordar, eu conseguia levantar da cama, tomar banho e ir trabalhar. Porque o choro compulsivo fora de hora e sem motivo era apenas sintoma da TPM, a perda de interesse e a falta de vontade de fazer qualquer coisa eram preguiça, a irritabilidade era da minha personalidade.

    Doenças e transtornos de ordem psíquica são como doenças e transtornos físicos: os sintomas variam. Você chega no hospital com dor de cabeça: pode ser um simples resfriado, pode ser enxaqueca ou pode ser um derrame cerebral. Óbvio que existem estereótipos e sintomas mais comuns, mas tê-los não te faz estar doente, da mesma forma que não os ter não te isenta dessa condição. Os sintomas são tão variados, específicos e concomitantes que alguns psicólogos não gostam de trabalhar com diagnóstico. O tratamento é tão específico que algumas pessoas ficam em tratamento psiquiátrico por anos até encontrar um remédio que se adeque ao seu organismo e suas necessidades.

    Se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Quadrinho por @cartumante

    O setembro amarelo é uma campanha brasileira para a prevenção do suicídio. O intuito da campanha é promover discussões e conscientizar a população acerca da importância dessa discussão. Por ano, 12 mil pessoas tiram sua própria vida e estima-se que mais de 96% dos casos estejam ligados a algum tipo de transtorno mental (os dados são do site oficial da campanha). É um assunto sério, é uma questão de saúde pública. Um problema dessa magnitude não vai ser resolvido em uma conversa pelo chat do Facebook, não vai ser resolvido com um abraço ou com um café. Cada ano que passa eu vejo mais e mais pessoas se disponibilizando para "ouvir desabafos" e para "conversar" sobre transtornos mentais. Quando vejo isso, só consigo pensar nesse quadrinho que a @cartumante sabiamente criou. Repito a pergunta: se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Esse post não está aqui para dizer que você não deve ajudar seu amigo/colega que está passando por uma situação difícil, mas existem formas de ajudar. Se alguém te procura para desabafar e você percebe que não é um simples desabafo, que aquela pessoa pode ter sintomas de depressão ou de algum transtorno de ordem psíquica, estimule-a a buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Sua tentativa de solucionar o problema sem a ajuda desses profissionais pode acabar piorando a situação ou postergando a procura por ajuda adequada, como aconteceu comigo. Lembro de ter uma dessas conversas de "pode desabafar comigo" durante uma crise de ansiedade que acabou desencadeando em uma série de eventos dos quais me envergonho até hoje. Mesmo assim, tive muita sorte: pagar um mico era a coisa mais leve que podia ter saído dessa conversa.

    Se você conhece alguém que está tendo idealizações suicidas, incentive-o a buscar ajuda especializada. Nesse link você encontra todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV). Eles atendem por chat, telefone (ligação gratuita), e-mail e presencialmente (infelizmente nem todas as cidades possuem postos de atendimento. Consulte o mais próximo de você aqui).

    Se você precisa de atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, a @pseudoruiva_ fez uma theread muito bacana com os contatos de clínicas populares que oferecem atendimento gratuito.

    Se você precisa de atendimento psiquiátrico gratuito, o SUS disponibiliza esse atendimento através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Esse serviço ocorre em diversas modalidades de atendimento, portanto é indicado que você procure o Núcleo de Apoio à Saúde da Família da sua cidade para que eles realizem o encaminhamento para o CAP adequado.

    Se você quer ajudar com a campanha Setembro Amarelo, o site oficial da campanha disponibiliza uma cartilha e posters que você pode imprimir e distribuir por aí. Eles também tem modelos de posts para redes sociais. 
    . 13 agosto 2019 .

    Há exatos três anos, no dia 24 de agosto de 2016, eu fiz minha primeira publicação no meu antigo blog, o LAPSOS. O fato de essa coincidência não ter sido planejado me deixou reflexiva - ultimamente, eu tenho refletido muito sobre coisas que antes julgava simples, banais e corriqueiras. Eu escrevo em blog desde... desde sempre. Não consigo me lembrar muito bem do ano exato, mas meu primeiro cantinho na internet tinha endereço .zip.net, era hospedado em um host da UOL que não existe mais e, para acessá-lo eu usava meu e-mail @oi.com.br. Minha internet era discada, eu fazia buscas no Cadê (um serviço de busca brasileiro que foi comprado pelo Yahoo!) e meu blog preferido era o Blog da Dê, uma menina que morava em São Paulo e compartilhava prints de jogos de maquiagem. 

    Sempre fico nostálgica quando falo sobre blogs porque eles sempre fizeram parte da minha vida. E junto com eles sempre existiu essa vontade de pertencer a um grupo de pessoas que compartilham a vida na internet. Para o meu azar, participar e pertencer são coisas muito diferentes. Eu sempre participei desse mundo: trocava selos de awards feitos no glitterfy, deixava comentários, escrevia longos textos sobre o quão era difícil ser adolescente, resenhava livros, participava de grupos de blogagem coletiva. Mas eu não pertencia.


    Em meados de 2005, não pertencia porque minha internet não era rápida o suficiente para carregar todos aqueles gifs. Em 2008, porque meu computador não tinha photoshop para fazer layouts com brushes e pngs transparentes. Em 2011, meus dramas adolescentes não eram tão legais quanto os das meninas que saiam escondidas para ir em festas. Em 2013, não tinha visualizações e comentários suficientes para ser digna de nota. Em 2016, meu conteúdo não era autêntico o suficiente para participar da blogosfera old schol.

    Sempre ficava ali, à margem. E, pensando sobre isso agora, percebo que talvez essa seja a razão pela qual eu precise recomeçar de tempos em tempos. Cada uma dessas tendências representa uma oportunidade que tive de me adequar, assim como cada um dos meus blogs representa uma tentativa vã de sentar na mesa dos populares (ou dos desajustados orgulhosos) durante o almoço. Não conseguir alcançar um objetivo pode ser frustrante, mas quando esse objetivo ganha uma conotação subjetiva desproporcional, a coisa extrapola a frustração e se transforma em fracasso.

    E o fracasso... bom, o fracasso fede. E não adianta esfregar. O cheiro dele não sai do seu corpo desse jeito.

    Foto por @fotografierende
    Mas a vida continua, certo?

    Conforme o tempo foi passando, o meu apreço pelo mundo dos blogs e o sonho de ser a nova Agatha Christie se transformaram em objetivos mais concretos - como arrumar um emprego, ganhar um salário, parar de viver as custas dos meus pais e pagar meus boletos. Assim como a Tati e a Manu já pontuaram muito bem (tanto que senti que elas tinham arrancados os sentimentos de dentro de mim e colocado na tela do computador), o fato de eu não ter me enveredado por uma profissão ligada a escrita fez com que minha relação com ela desandasse.

    Como num casamento, a escrita e eu passamos por várias crises. Primeiro, com a falta de tempo e o sentimento de não ser boa o suficiente. Depois, com o mestrado e a imposição da escrita científica - e aí coisa desandou de vez. Passei meses olhando para a tela em branco. Das primeiras três páginas de rascunho do meu projeto de qualificação, apenas dois parágrafos ficaram intocados - não por estarem bem escritos, mas porque minha orientadora não teve tempo para ler tudo. A folha em branco no word (em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5) não só me encarava, mas me assombrava. O medo me travou. A menina que foi desclassificada da olimpíada de redação por "escrever demais" começou a desconfiar que nunca tinha sido alfabetizada.

    Mas desapegar é difícil. Mesmo com as crises, problemas e traumas, o apego e o amor ainda estão lá. Assim como os noivos jogam os votos um na cara do outro "até que a morte os separe", eu me vejo olhando para a pequena Natália que viveu seus melhores momentos em meio a palavras (lidas e escritas) e não consigo deixá-la para trás. Não consigo dizer para ela que é o fim, que o ensino médio terminou, que a vida adulta exige sacrifícios e que, de qualquer forma, a mesa dos populares era só uma metáfora.

    Ainda sobre metáforas, me vejo como o dilema do porco espinho, de Schopenhauer: ficar perto da escrita me machuca, mas se eu me afastar demais estarei fada à morte. Não literalmente, claro, mas acho que exemplo ilustra bem. Eu preciso escrever. E mesmo que eu nunca consiga pertencer ao mundo dos blogs, a escrita faz com que eu pertença a mim mesma. Não é muito, mas, por hora, é o bastante.

    We live in the shadows and 
    we had the chance and threw it away 
    and it's never going to be the same
    'cause the years are falling by like the rain 
    it's never gonna be the same 
    'til the life I knew comes to my house and says 
    hello