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    supostamente, ela escreve

    Esse blog foi criado para que eu, Natália Oliveira, tivesse um espaço na internet para publicar meus textos. A bem da verdade, mais procrastino que escrevo, mas isso não me impede de sonhar acordada com o dia em que conseguirei escrever algo realmente bom. Sou saudosista da época dos blogs pessoais, gosto de histórias (e fofocas) e de jogos casuais. Esse blog já teve vários nomes (natalapses; natália non grata; olive trees, garnets and trains) e escrevo nesse espaço de forma inconstante desde agosto de 2016.

    Se quiser entrar em contato, basta deixar um comentário ou mandar um e-mail para mail.natalialvr@gmail.com.

    coleção de quotes – twitter – spotify – link afiliado da amazon

    É, eu sei. Você deve estar pensando "sério, Natália? Insetos?". Pois é, insetos. 

    Tenho a mania de tirar fotos de coisas aleatórias em ângulos estranhos e depois jogar um monte de filtros e efeitos na edição para ver no que aquilo vai dar - um passatempo inútil, já que eu nunca dediquei meu tempo a estudar fotografia e, como você vai perceber nesse post, não tenho talento natural para a coisa. Uma das coisas que costumo fotografar são insetos. Antes de me julgar, saiba que insetos são bonitinhos, sim! Tudo bem, eles podem ser assustadores e chatos, mas eles também podem ter asas e anteninhas extremamente detalhadas, com padrões de disposição superinteressantes. As pessoas só têm dificuldade em perceber esses detalhes. Talvez isso aconteça porque os insetos costumam se mover rápido demais e/ou perto demais da sua cara.  Ou talvez porque eles têm o péssimo hábito de tentar se aproveitar da sua comida. Ou porque eles podem causar alergias em algumas pessoas. Ou porque alguns transmitem doenças... enfim!

    Em minha defesa, deixo registrado que eu estava preparando um post gigantesco sobre a discografia da minha banda preferida quando a vida aconteceu e minha saúde mental pediu socorro novamente. Eu gostaria muito de dar uma pausa para me recuperar desse break down, mas já tive break downs demais e tenho um mestrado para terminar. Antes que esse espaço se tornasse mais um dos meus projetos abandonados mais uma vez, resolvi colocar essas fotos aqui. 

    Recebam com carinho (e um pouquinho de compreensão), ok?



    No início da quarentena, Manu e eu tivemos a ideia de fazer um desafio fotográfico informal. A ideia era manter o hobbie e não surtar, mas, como vocês podem ver, não deu muito certo. Um dos temas que definimos para o desafio foi "detalhes", então eu decidi tirar uma foto desse insetinho bonitinho com detalhes vermelhinhos que estava do lado de fora da minha janela e dessa joaninha simpática que estava passeando pela minha cortina. 


    Mais ou menos na mesma época desse desafio, eu fiquei um pouco perdida nas minhas tarefas. A quarentena me causou um probleminha de percepção da passagem do tempo que minha psicóloga chamou de dissociação. Bom, o que eu fiz para tentar melhorar? Uma lista dos meus afazeres? Grandes cruzes vermelhas em um calendário para marcar a passagem do tempo? Contratei um coach? Nada disso! Aproveitei que esse inseto grandão resolveu descansar em uma parede branca aqui de casa e fiz uma sessão fotográfica com ele. Ao todo foram 37 fotos e essa foi a minha preferida.



    Meu pai costuma ser levemente desleixado com o jardim aqui de casa. Ele plantou uma flor vermelha que se parece muito com bico-de-papagaio e ela cresceu bem mais do que o esperado - hoje ela está bem mais alta do que eu (o que não é lá grande coisa porque eu não sou uma pessoa alta, mas, ainda assim, muito para uma flor de jardim). Meu pai não quer cortar a planta porque acha ela bonita do jeito que está e no fim de semana passado eu reparei que ela está servindo de lar para um monte de insetos. Resolvi me meter no meio das plantas para tentar fotografar alguns. Não achei que as fotos ficaram boas e foi bem chatinho tentar ajustar as cores - tanto que deixei a última em preto e branco.

    INÍCIO DE UM SONHO / DEU TUDO ERRADO


    A maior dificuldade que eu tenho ao tentar tirar fotos de insetos é o tamanho deles. A maioria deles é muito pequena e eu fico com medo de chegar a câmera perto demais e acabar espantando eles para longe. O zoom do celular é péssimo e nas poucas vezes em que tentei sair correndo para pegar a câmera (que tem um zoom bem mais decente) o inseto foi embora e eu fiquei lamentando. As últimas fotos desse post são justamente essas fotos que deram errado - não que as outras tenham dado super certo, mas essas certamente ficaram piores.

    Uma das coisas que eu tento fazer para não perder o registro é aplicar um monte de efeitos de luz para dar aquela impressão de "estou nos anos 90 e, ops, acabei queimando a borda dessa foto na hora de revelar o filme" ou de "ops, bati uma foto analógica fora de foco".

    Essa abelha saiu voando bem na hora em que eu tentei tirar a foto.
    Uma mariposa na janela em um dia de chuva seria bem mais poético se eu conseguisse focar na mariposa

    E esses foram os insetos que me fizeram companhia na quarentena. A quem interessar possa, todas as fotos foram tiradas com a câmera do MI 9 SE da Xiaomi (aquela marca que faz coisas muito melhores e mais baratas do que as outras marcas), com exceção da sessão fotográfica do inseto grandão, que foi feita com uma Canon SX 520 HS. Por que eu não peguei a câmera para tirar foto com um zoom decente dos insetos pequenos, mas peguei para tirar fotos de um inseto grande? Sei lá, sou doida.

    Você pode me mandar um "puta que pariu, que post mais bosta" lá no twitter.
    . 07 junho 2020 .
    . 30 maio 2020 .

    Tudo o que eu escrevo é sobre escrever.

    Se você me acompanhava finado blog LAPSOS, me segue no twitter (aka melhor e pior rede social do mundo) ou já prestigiou uma das minhas tentativas fracassadas de começar uma newsletter, sabe que a escrita tem sido um grande fardo para mim. A menina que era reconhecida por escrever bem decidiu entrar em um mestrado e toda a sua confiança foi sugada pelo monstro do mundo acadêmico. Desde então, as crises se acumulam no meu colo: crises de identidade, crises de ansiedade, crises criativas, crises existenciais e, óbvio, a crise da escrita.

    Toda nova tentativa que eu faço de voltar a escrever com prazer começa com um monólogo existencial sobre essa briga eterna entre a escrita e eu. E eu imagino que você que tem acompanhado todas as minhas lamúrias - e até mesmo você que acabou de cair de paraquedas por aqui -  pode estar se perguntando "menina, se isso é tão difícil para você, se você já tentou tanto e se isso está te fazendo mal há tanto tempo, por que você não desiste? Por que não esquece isso, deixa de lado, para de forçar e começa a viver uma vida mais leve?". 

    Essa pergunta tem mais de uma resposta, mas a principal delas é: não consigo. Não consigo abrir mão da escrita porque escrevo mesmo sem escrever. Esse texto, por exemplo, já foi escrito na minha cabeça dezenas de vezes: enquanto eu tomava banho, lavava a louça, rolava na cama esperando o sono vir... Em inúmeras situações minha cabeça liga o modo "escrita" e começa a escrever. 

    Consigo diferenciar os pensamentos normais dos pensamentos de escrita porque, como a boa mineira que sou, tenho o hábito de falar e pensar engolindo as palavras. Enquanto os pensamentos normais soam como "tenque pegá os trem e botána sacola puquê o lixero vai passamanhã", os pensamentos de escrita são algo do tipo "os objetos jogados na sacola e a sacola jogada sobre ao chão. Amanhã estarão jogados em outro lugar, dando fim a seu ciclo de serventia descartável". Além disso, os pensamentos de escrita são editáveis, posso voltar e trocar "serventia" por "utilidade", inverter a ordem das frases, transformar tudo em um diálogo, mudar as pontuações. 

    Os pensamentos de escrita ecoam na minha cabeça, mas raramente passam para o papel (ou para a tela do computador, você entendeu).

    O mais frustrante sobre isso tudo é que eu poderia lotar uma biblioteca com todos os textos que não escrevi. Se eu começasse a escrever assim que os pensamentos de escrita invadissem a minha imaginação, Stephen King não seria ninguém na fila da produtividade. Mas eu não começo, não escrevo. Anoto uma coisa aqui e ali e juro para mim mesma que vou voltar nessas anotações e transformar aquilo tudo em um texto brilhante, mas procrastino essas palavras para sempre. Continuo sendo uma escritora assídua no mundo de faz de conta que existe na minha cabeça e uma grande vagabunda fracassada no mundo real.

    imagem por @tanyatrukyr

    Ah, e ainda temos uma cereja para colocar nesse bolo: a COVID-19.

    Esse post está sendo publicado no meio de uma pandemia (meio, risos, quem dera fosse o meio...). Meus pensamentos de escrita as vezes me carregam para cenários distópicos e, como sempre tive uma tendência a ser fatalista, sempre fui capaz de imaginar crimes em massa, guerras, crises econômicas catastróficas e desastres naturais de grande porte. Mas nem no auge da minha criatividade eu seria capaz imaginar que isso tudo viria junto com uma pandemia, um presidente genocida e um grupo de lunáticos que pedem a publicação de um novo AI 5 em nome da liberdade de expressão. É, eu sei. Nada é tão ruim que não possa ficar pior. 

    Enfim, no meio desse caos interno e externo, percebi que nunca vou conseguir terminar minha dissertação se não voltar a ter prazer em expulsar as palavras do meu cérebro e obrigá-las a ir para o mundo. Além disso, vejo certa beleza em começar algo no meio de uma pandemia. É como olhar na cara da morte enquanto fim e soprar a vida em forma de início - não por amor a vida em si, porque isso não faz meu tipo, mas por amor a "ser do contra".

    Essa é a tentativa número 1319 de voltar a escrever com prazer. Sejam bem vindos.

    Para ler mais reclamações, você pode me seguir no twitter.
    . 26 setembro 2019 .

    Antes tarde do que nunca, esse é um post sobre setembro amarelo. Antes de lê-lo, você deve ter em mente que:

    • vou falar sobre episódios depressivos, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e ideação suicida. Esses assuntos podem ser gatilhos, principalmente para quem não está em um momento legal. Se esse é seu caso, recomendo fortemente que não leia esse texto e que procure ajuda. Aqui tem todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV) e nessa thread tem o contato de algumas clínicas populares que fazem atendimentos gratuitos (ou mediante pagamentos simbólicos). Não deixe de procurar ajuda, tá bem? 
    • não sou profissional da saúde e não tenho formação na área. Tudo o que está escrito aqui advém da minha experiência e da minha percepção. Não são verdades absolutas, não são parâmetros para autodiagnostico (nada deveria ser, se você pensar bem) e não são regras universais. Se você identificar alguma coisa nesse texto que esteja esdruxulamente errado, me manda uma mensagem para que eu possa colocar uma errata no post, ok?

    A memória mais antiga que eu tenho com relação à saúde mental advém do início dos anos 2000, quando estava na segunda série. Uma amiga e eu estávamos criando nossas assinaturas, porque era muito adulto ter uma assinatura e saber fazer ela igualzinha todas as vezes. Lembro de estar sentada na frente da TV, praticando incessantemente minha nova assinatura, quando ouvi uma moça dizer que as pessoas que faziam “forcas” no final da assinatura tendiam a cometer suicídio. Olhei para todas aquelas folhas com garranchos rabiscados e a única coisa comum a todos aqueles rabiscos era a “forca” no final. Talvez tudo tenha começado aí, talvez seja uma daquelas coisas latentes que se manifestam na nossa personalidade mais cedo ou mais tarde, não importa muito agora. O que importa é que, a partir daquele momento, suicídio entrou na lista de assuntos que despertam o meu interesse.

    Muitas pessoas torcem o nariz quando o tema é morte e/ou suicídio. Algumas vão dizer “Deus me livre” e cortar o assunto, outras vão fazer careta e sair de perto. Nunca foi meu caso. Pensar na morte era tão natural quanto respirar e querer morrer não era mais do que um sintoma de estar viva. E eu realmente acreditava – e, de certa forma, continuo acreditando – que se falássemos mais sobre isso seria muito mais fácil diferenciar um “tive um dia péssimo, queria estar morta” de um “comprei três caixas de paracetamol e estou pensando em me matar”. Mas eu também acreditava que, se eu chegasse nesse ponto, seria mais fácil pedir ajuda. Afinal, uma pessoa que não tem problemas em falar sobre morte não vai ter problemas em procurar ajuda psicológica/psiquiátrica no momento de dificuldade, certo? Bom, não. Nada certo.

    Foto por @yanots

    Aos dezoito anos, comecei a ter alguns sinais de que as coisas não estavam indo tão bem. Alguns choros injustificados, tristeza e desânimo. As vezes piorava, mas não chegavam a ser ruim em um nível que me preocupasse. Estar mal é normal, acontece. Aos vinte, comecei a trabalhar em um lugar... pesado. Um lugar com um número de eventos estressores bem maiores que o normal (ou que o necessário). Os sintomas pioraram, ficaram mais frequentes, evoluíram. Medo de sair de casa com os amigos, medo de esquecer a senha do cartão e atrasar toda a fila do caixa, ataques de pânico, compulsão alimentar, ideação suicida.

    Demorei quase um ano para procurar ajuda psicológica e nem vou entrar no mérito da intervenção psiquiátrica porque ainda não estou bem resolvida com isso. O fato é que eu não acreditava que tinha depressão, nem que ansiedade fosse uma questão, muito menos que procurar métodos de cometer suicídio na internet e considerar comprar alguns itens eram comportamentos problemáticos para alguém que gostava tanto do tema. E sabe por quê? Porque eu não perdi peso, ganhei peso. Não tinha insônia, nem dificuldade para dormir. Na verdade, eu dormia em qualquer lugar, em qualquer horário, em qualquer posição. Porque por mais que eu não gostasse de acordar, eu conseguia levantar da cama, tomar banho e ir trabalhar. Porque o choro compulsivo fora de hora e sem motivo era apenas sintoma da TPM, a perda de interesse e a falta de vontade de fazer qualquer coisa eram preguiça, a irritabilidade era da minha personalidade.

    Doenças e transtornos de ordem psíquica são como doenças e transtornos físicos: os sintomas variam. Você chega no hospital com dor de cabeça: pode ser um simples resfriado, pode ser enxaqueca ou pode ser um derrame cerebral. Óbvio que existem estereótipos e sintomas mais comuns, mas tê-los não te faz estar doente, da mesma forma que não os ter não te isenta dessa condição. Os sintomas são tão variados, específicos e concomitantes que alguns psicólogos não gostam de trabalhar com diagnóstico. O tratamento é tão específico que algumas pessoas ficam em tratamento psiquiátrico por anos até encontrar um remédio que se adeque ao seu organismo e suas necessidades.

    Se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Quadrinho por @cartumante

    O setembro amarelo é uma campanha brasileira para a prevenção do suicídio. O intuito da campanha é promover discussões e conscientizar a população acerca da importância dessa discussão. Por ano, 12 mil pessoas tiram sua própria vida e estima-se que mais de 96% dos casos estejam ligados a algum tipo de transtorno mental (os dados são do site oficial da campanha). É um assunto sério, é uma questão de saúde pública. Um problema dessa magnitude não vai ser resolvido em uma conversa pelo chat do Facebook, não vai ser resolvido com um abraço ou com um café. Cada ano que passa eu vejo mais e mais pessoas se disponibilizando para "ouvir desabafos" e para "conversar" sobre transtornos mentais. Quando vejo isso, só consigo pensar nesse quadrinho que a @cartumante sabiamente criou. Repito a pergunta: se uma pessoa que tem um diploma e uma profissão aptos para a função podem encontrar dificuldade em ajudar uma pessoa com uma condição mental incapacitante, imagine uma pessoa que nunca teve contato com a área?

    Esse post não está aqui para dizer que você não deve ajudar seu amigo/colega que está passando por uma situação difícil, mas existem formas de ajudar. Se alguém te procura para desabafar e você percebe que não é um simples desabafo, que aquela pessoa pode ter sintomas de depressão ou de algum transtorno de ordem psíquica, estimule-a a buscar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Sua tentativa de solucionar o problema sem a ajuda desses profissionais pode acabar piorando a situação ou postergando a procura por ajuda adequada, como aconteceu comigo. Lembro de ter uma dessas conversas de "pode desabafar comigo" durante uma crise de ansiedade que acabou desencadeando em uma série de eventos dos quais me envergonho até hoje. Mesmo assim, tive muita sorte: pagar um mico era a coisa mais leve que podia ter saído dessa conversa.

    Se você conhece alguém que está tendo idealizações suicidas, incentive-o a buscar ajuda especializada. Nesse link você encontra todos os canais de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV). Eles atendem por chat, telefone (ligação gratuita), e-mail e presencialmente (infelizmente nem todas as cidades possuem postos de atendimento. Consulte o mais próximo de você aqui).

    Se você precisa de atendimento psicológico gratuito ou de baixo custo, a @pseudoruiva_ fez uma theread muito bacana com os contatos de clínicas populares que oferecem atendimento gratuito.

    Se você precisa de atendimento psiquiátrico gratuito, o SUS disponibiliza esse atendimento através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Esse serviço ocorre em diversas modalidades de atendimento, portanto é indicado que você procure o Núcleo de Apoio à Saúde da Família da sua cidade para que eles realizem o encaminhamento para o CAP adequado.

    Se você quer ajudar com a campanha Setembro Amarelo, o site oficial da campanha disponibiliza uma cartilha e posters que você pode imprimir e distribuir por aí. Eles também tem modelos de posts para redes sociais. 
    . 13 agosto 2019 .

    Há exatos três anos, no dia 24 de agosto de 2016, eu fiz minha primeira publicação no meu antigo blog, o LAPSOS. O fato de essa coincidência não ter sido planejado me deixou reflexiva - ultimamente, eu tenho refletido muito sobre coisas que antes julgava simples, banais e corriqueiras. Eu escrevo em blog desde... desde sempre. Não consigo me lembrar muito bem do ano exato, mas meu primeiro cantinho na internet tinha endereço .zip.net, era hospedado em um host da UOL que não existe mais e, para acessá-lo eu usava meu e-mail @oi.com.br. Minha internet era discada, eu fazia buscas no Cadê (um serviço de busca brasileiro que foi comprado pelo Yahoo!) e meu blog preferido era o Blog da Dê, uma menina que morava em São Paulo e compartilhava prints de jogos de maquiagem. 

    Sempre fico nostálgica quando falo sobre blogs porque eles sempre fizeram parte da minha vida. E junto com eles sempre existiu essa vontade de pertencer a um grupo de pessoas que compartilham a vida na internet. Para o meu azar, participar e pertencer são coisas muito diferentes. Eu sempre participei desse mundo: trocava selos de awards feitos no glitterfy, deixava comentários, escrevia longos textos sobre o quão era difícil ser adolescente, resenhava livros, participava de grupos de blogagem coletiva. Mas eu não pertencia.


    Em meados de 2005, não pertencia porque minha internet não era rápida o suficiente para carregar todos aqueles gifs. Em 2008, porque meu computador não tinha photoshop para fazer layouts com brushes e pngs transparentes. Em 2011, meus dramas adolescentes não eram tão legais quanto os das meninas que saiam escondidas para ir em festas. Em 2013, não tinha visualizações e comentários suficientes para ser digna de nota. Em 2016, meu conteúdo não era autêntico o suficiente para participar da blogosfera old schol.

    Sempre ficava ali, à margem. E, pensando sobre isso agora, percebo que talvez essa seja a razão pela qual eu precise recomeçar de tempos em tempos. Cada uma dessas tendências representa uma oportunidade que tive de me adequar, assim como cada um dos meus blogs representa uma tentativa vã de sentar na mesa dos populares (ou dos desajustados orgulhosos) durante o almoço. Não conseguir alcançar um objetivo pode ser frustrante, mas quando esse objetivo ganha uma conotação subjetiva desproporcional, a coisa extrapola a frustração e se transforma em fracasso.

    E o fracasso... bom, o fracasso fede. E não adianta esfregar. O cheiro dele não sai do seu corpo desse jeito.

    Foto por @fotografierende
    Mas a vida continua, certo?

    Conforme o tempo foi passando, o meu apreço pelo mundo dos blogs e o sonho de ser a nova Agatha Christie se transformaram em objetivos mais concretos - como arrumar um emprego, ganhar um salário, parar de viver as custas dos meus pais e pagar meus boletos. Assim como a Tati e a Manu já pontuaram muito bem (tanto que senti que elas tinham arrancados os sentimentos de dentro de mim e colocado na tela do computador), o fato de eu não ter me enveredado por uma profissão ligada a escrita fez com que minha relação com ela desandasse.

    Como num casamento, a escrita e eu passamos por várias crises. Primeiro, com a falta de tempo e o sentimento de não ser boa o suficiente. Depois, com o mestrado e a imposição da escrita científica - e aí coisa desandou de vez. Passei meses olhando para a tela em branco. Das primeiras três páginas de rascunho do meu projeto de qualificação, apenas dois parágrafos ficaram intocados - não por estarem bem escritos, mas porque minha orientadora não teve tempo para ler tudo. A folha em branco no word (em Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5) não só me encarava, mas me assombrava. O medo me travou. A menina que foi desclassificada da olimpíada de redação por "escrever demais" começou a desconfiar que nunca tinha sido alfabetizada.

    Mas desapegar é difícil. Mesmo com as crises, problemas e traumas, o apego e o amor ainda estão lá. Assim como os noivos jogam os votos um na cara do outro "até que a morte os separe", eu me vejo olhando para a pequena Natália que viveu seus melhores momentos em meio a palavras (lidas e escritas) e não consigo deixá-la para trás. Não consigo dizer para ela que é o fim, que o ensino médio terminou, que a vida adulta exige sacrifícios e que, de qualquer forma, a mesa dos populares era só uma metáfora.

    Ainda sobre metáforas, me vejo como o dilema do porco espinho, de Schopenhauer: ficar perto da escrita me machuca, mas se eu me afastar demais estarei fada à morte. Não literalmente, claro, mas acho que exemplo ilustra bem. Eu preciso escrever. E mesmo que eu nunca consiga pertencer ao mundo dos blogs, a escrita faz com que eu pertença a mim mesma. Não é muito, mas, por hora, é o bastante.

    We live in the shadows and 
    we had the chance and threw it away 
    and it's never going to be the same
    'cause the years are falling by like the rain 
    it's never gonna be the same 
    'til the life I knew comes to my house and says 
    hello
    . 16 dezembro 2018 .

    Minha mãe sempre teve alguns livros em casa e eu lembro de passar bastante tempo mexendo neles, procurando alguma coisa bacana para ler. Geralmente eu me apegava aos livros da coleção Literatura em Minha Casa, que minha mãe ganhou quando a biblioteca da escola onde ela trabalha doou os livros que não usavam o (não mais tão) Novo Acordo Ortográfico. Passeando por todas as capas e textos, eu sempre olhava de rabo de olho para um livrinho fino, da lombada roxa. Sempre espreitando, esperando que chegasse a vez dele. Nunca chegava, porque eu fazia questão de tampar sua capa colocando outro livro por cima e ignorava completamente o fato de que lê-lo era uma opção.

    Aquela famosa frase "não julgue o livro pela capa" nunca funcionou aqui. Aquela lombada roxa trazia consigo um fantasma debochado, cujos cabelos se confundiam com a copa de uma árvore seca, em meio a letras amarelas que só faziam aquilo ficar mais e mais bizarro. Eu tinha pavor dessa capa. Lembro de ser uma criancinha medrosa, que chorava toda vez que, em um descuido, minha mãe deixava a capa daquele livro à mostra.

    Se essa capa não faz você sentir uma coisa muito ruim, tá errado

    O tempo passou, o medo também, mas aquela lembrança amarga do ranço daquele livro me perseguiu. Dizia aos quatro cantos que a alta literatura brasileira era uma vaidade inacessível para grande parte do povo que faz parte desse país (e ainda penso isso) e que não merecia ser lida, muito menos digna de apreço. Sim, eu me sentia digna de achar Machado de Assis overated. E isso perdurou até o dia em que a professora de português da oitava série exigiu que a turma toda lesse o tal do Memórias Póstumas de Brás Cubas. E eu li.

    E continuei achando uma bosta!

    Hoje, depois de adquirir um pouquinho mais de conhecimento e a plena noção de que não sei porra nenhuma, consigo perceber a genialidade por trás dessa obra. A ironia, o escárnio, o desprezo pela condição humana e o deboche são trejeitos incrustados em mim de uma maneira tão marcante quanto estão nessa obra. Eu tinha tudo para amar esse livro, mas não amei.

    E por quê? Porque minha professora de português me obrigou a ler o livro.

    Lembro que essa professora chegava na sala e escrevia uma frase no quadro, do tipo "Maria e João foram à praça passear" e, em seguida, perguntava para a turma "Qual o sujeito da frase?". Eu era a única que sabia a resposta, porque era uma das poucas que estavam fazendo cursinho (gratuito!) para entrar na escola técnica. Uma vez ela pediu para que eu parasse de responder a essas perguntas e deixar os outros alunos tentarem, mas toda aquela dinâmica não era sobre tentar! Era sobre aprender! Mas ninguém aprendia naquela sala, nem em nenhuma das outras sete salas que tínhamos frequentado durante o ensino fundamental. Nessas salas, a lógica sempre foi mais sobre dar a resposta certa do que sobre aprender.

    Se a gente não sabia qual era o sujeito da frase "Maria e João foram à praça passear", como íamos saber o que Brás Cubas quis dizer com o tal "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas"?

    Foto da réplica da biblioteca de Juscelino Kubitschek, no Memorial JK.

    Eu tiro duas conclusões principais desse post: 1) o ensino público no Brasil precisa ser repensado, não perdendo tempo com aquela merda de discussão idiota sobre escola sem partido (falha nos seus próprios termos lógicos), mas pensar as possibilidades metodológicas e propor uma mudança concreta nos conteúdos; e 2) gostar ou não de um livro está muito relacionado ao momento em que estamos vivendo. Obrigar um jovem que nunca teve contato com a leitura a consumir um livro clássico, com colocações e vocabulários que não são acessíveis a ele, pode fazer com que essa pessoa nunca mais queira ler um livro - da mesma forma que o mesmo jovem pode ler um livro juvenil e tomar gosto pela leitura (saudades série vaga-lume).

    Para encerrar, gostaria de parabenizar o design que fez a capa desse livro: obrigada pelo trauma ¯\_(ツ)_/¯

    Atualização (18/09/2021): não acho justo chamar esse livro de "uma bosta" como eu disse lá em cima. Hoje consigo enxergar o valor cultural do livro e a genialidade das alegorias que Machado de Assis colocou nesse livro. De fato, é uma obra excelente e muito divertida de ler - desde que você tenha maturidade para compreender a leitura. Para que você não tenha o mesmo trauma que eu, recomendo essa edição publicada pela Antofágica.

    Conta aqui nos comentários se você já leu esse livro e o que achou dele. Aproveita para me contar se alguma professora chata já te obrigou a ler um clássico e estragou ele para você.