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    supostamente, ela escreve

    Esse blog foi criado para que eu, Natália Oliveira, tivesse um espaço na internet para publicar meus textos. A bem da verdade, mais procrastino que escrevo, mas isso não me impede de sonhar acordada com o dia em que conseguirei escrever algo realmente bom. Sou saudosista da época dos blogs pessoais, gosto de histórias (e fofocas) e de jogos casuais. Esse blog já teve vários nomes (natalapses; natália non grata; olive trees, garnets and trains) e escrevo nesse espaço de forma inconstante desde agosto de 2016.

    Se quiser entrar em contato, basta deixar um comentário ou mandar um e-mail para mail.natalialvr@gmail.com.

    coleção de quotes – twitter – spotify – link afiliado da amazon

    Green Day é a minha banda do coração desde que eu tinha uns doze anos de idade. Mesmo que meu gosto musical tenha mudado muito ao longo do tempo e que eu tenha dedicado muita atenção e amor a outras bandas nesse período, Green Day sempre está ali no background. Esse ano tem CD novo do Green Day? Billie quebrou uma guitarra no palco e depois foi pra rehab?Novo projeto paralelo (mais um)? Não importa o que eles façam, eu estou sempre de olho (aproveito o momento para agradecer a todos os perfis de fan clube e grupos do reddit que acompanham a banda de perto e me atualizam com as notícias - em especial ao GDEspionage que diariamente me alimenta com informações e memes).

    Há alguns dias, ficou muito popular na minha bolha no instagram um modelo de storie onde você fazia uma batalha entre músicas de uma determinada banda até chegar na sua música preferida. Fiz e compartilhei a do Green Day e apesar de ter sido muito legal, fiquei coçando para falar sobre músicas que não entraram na batalha de músicas. Poxa, a banda tá na ativa desde 1986! Muitas músicas excelentes ficaram de fora. Até considerei fazer alguns stories com a minha música preferida de cada álbum, mas descobri que não consigo escolher uma só. 

    Foto é de um ensaio fotográfico que a banda fez por volta de 1994/1995

    Primeiro, pensei em fazer esse post falando de cada um dos CDs, dos contextos em que foram lançados, das minhas opiniões sobre cada música, etc. No meio do processo, o post já estava gigantesco e eu pensei "poxa, acho que ninguém vai querer passar três horas lendo isso", então resolvi reduzir o post a uma playlist (maravilhosa) no Spotify com as minhas músicas preferidas de cada álbum de estúdio. 

    Aviso aos navegantes: essa playlist não contempla os álbuns ao vivo (são muitos), nem os projetos paralelos (que também são muitos) e as coletâneas, com exceção do disco 1,039/Smoothed Out Slappy Hours que tomou o lugar do 39/Smooth na discografia do Spotify - para quem ficou perdido no aviso, o CD 1,039/Smoothed Out Slappy Hours é uma coletânea lançada em 1991 que contempla o CD 39/Smooth e os EPs 1,000 Hours e Slappy.

     


    É muito legal poder revisitar todos os álbuns e músicas lançadas por uma das minhas bandas preferidas. Posso dizer que o Green Day fez parte da formação do meu caráter, acompanhou meu crescimento e me fez pensar muito sobre os meus posicionamentos políticos através de suas letras (vide o discurso que o Billie Joe faz no meio da música Minority, no DVD Bullet in a Bible e a apresentação deles no VMA de 2016). É muito satisfatório ver que uma banda, um grupo de artistas que eu admirava há mais de dez anos atrás continua sendo admirável - principalmente no contexto caótico em que estamos vivendo.

    Espero que vocês tenham gostado da playlist e do post. Deixa aí nos comentários alguma banda que te acompanha desde a adolescência e qual a sua música preferida deles (e tudo bem se você também for uma pessoa indecisa e quiser citar mais de uma, ou até me mandar uma playlist).

    Você também pode conversar comigo sobre bandinhas lá no twitter.
    . 15 agosto 2020 .
    . 21 julho 2020 .

    _ Júlio! Ô Júlio! Ô JÚLIO!!!

    Era sempre assim. Toda vez que Sara mandava Júlio lavar a louça, ele sumia. Já estava quase na hora do jantar e as vasilhas usadas no almoço ainda estavam sujas e empilhadas na pia. Onde estava o marido? Ah, mas ela ia fazer um escândalo quando ele chegasse em casa! Sara estava cansada de arcar com as tarefas domésticas sozinha. Combinado era combinado! Dessa vez, ela ia dar-lhe um belo de um cacete para ele aprender a não dar uma de João sem braço para fugir de suas tarefas.

    _ JUUUUULIOOOOO!!!!

    Mas parecia que Júlio tinha tomado um chá de sumiço. Procurou em todos os cômodos da casa e no quintal, mas ele não estava em lugar nenhum. 

    Quando Sara estava prestes a gritar seu nome mais uma vez, deparou-se com o gafanhoto. Estava prestes a tomar um susto, mas o susto parou no meio do caminho. Aquele bicho não era normal. Ele era grande demais! Parecia ter mais de dez centímetros de comprimento e era... estranhamente familiar. Sara chegou mais perto e teve a sensação de que conhecia o olhar daquele inseto. 

    _ Júlio?

    O gafanhoto abriu e fechou as asas rapidamente.

    _ Júlio?!

    O mesmo movimento, agora acompanhado por um ruído estridente.

    _ MEU DEUS JÚLIO, VOCÊ VIROU UM GAFANHOTO!

    Sara entrou em desespero.

    imagem por @georgiadelotz

    Começou a andar de um lado para o outro, perplexa com a situação. Aquilo realmente era possível? Um ser humano se transformar em um bicho de uma hora para a outra? Como isso aconteceu? Será que seu marido era um bruxo, que nem aquele padrinho descabelado do Harry Potter? Teria ele a coragem de se transformar em bicho para fugir da louça suja? Não, não era possível. Ele não teria conseguido esconder a bruxaria por tanto tempo... 

    Por mais que nada daquilo fizesse sentido, Sara sentia uma espécie de deja-vu. Essa história lhe soava familiar... Onde Sara tinha visto um homem se transformaram em inseto antes?

    _ Puta merda, o livro da Dona Carminha!

    Dona Carminha foi sua professora no último ano do ensino médio. Em um dos trabalhos, ela pediu que a turma lesse e resenhasse um tal livro que começava contando a história de um homem que acordava transformado em barata ou algo do tipo. Sara havia achado a história muito chata, desistiu do livro logo nas primeiras páginas e acabou entregando uma resenha qualquer que copiou da internet. Óbvio que a professora descobriu e lhe deu zero pelo trabalho. Ela pensava que aquele zero era punição suficiente, mas agora estava claro que a vida discordava. Era isso: Deus havia transformado seu marido em inseto para lhe ensinar a cumprir com suas obrigações e a não cometer plágio (palavra que a Dona Carminha escrevera com caneta vermelha e letras garrafais na capa da sua resenha).

    _ Ah, meu Deus, é tudo culpa minha! Fui eu que praguejei quando a professora de português mandou a gente ler aquele livro chato do homem que vira barata! Se eu não tivesse copiado aquele troço... Meu Deus... Júlio, você tá com fome? O que você vai comer, Júlio, eu não sei o que esse bicho come. Não que eu esteja chamado você de bicho, não é isso. Ah, meu Deus... Eu vou te tirar daí, Júlio, aguenta firme que eu vou te tirar daí. 

    Sara corre até o seu quarto e, depois de revirar algumas tralhas acumuladas, acha o livro jogado em um canto do guarda-roupas. A metamorfose, escrito por Franz Kafka. A resposta só podia estar ali. Agora, ela desejava mais do que tudo não ter largado o livro depois das primeiras páginas. Se tivesse lido, saberia o que fazer para trazer Júlio de volta a forma humana. Afinal, todas as histórias terminavam bem. O tal do homem devia volta a forma humana no final. Se bem que... no Titanic o navio afundava…  

    _ Mas Titanic não é livro, é filme, que nem Harry Potter. Já sei que isso não é caso de filme, é caso de livro! Então tudo bem, vai ficar tudo bem - ela disse em voz alta, mais para convencer a si mesma do que por qualquer outro motivo.

    Começou a folhear as páginas rapidamente, começando pelo final, mas aquele homem escrevia de um jeito muito chato. Era impossível entender o que estava acontecendo apenas por alguns trechos e Sara não conseguia se concentrar. Logo, seus pensamentos se enveredaram por outros caminhos, até que lhe ocorreu que Júlio poderia se assustar e sair de cima da geladeira para pedir socorro. "E se alguém pisar em cima dele?", pensou. 

    Ainda com o livro da mão, Sara correu de volta até a cozinha. Para o seu alívio, o gafanhoto ainda estava lá, na mesma posição. Olhou para o livro em sua mão, para a pia abarrotada de louça suja e para o gafanhoto, que mexeu as patinhas e fez aquele barulho outra vez. A realidade caiu sobre ela com força. Se ninguém acreditasse nela, o que seria de seu marido? O que os médicos poderiam fazer para salvá-lo? E se aquilo não tivesse cura e ele ficasse daquele jeito para sempre? Os médicos liam Franz Kafka na faculdade?

    Sara não aguentou a pressão de tantas dúvidas. Desabou-se a chorar. O gafanhoto a fitava em silêncio.

    Quando o choro finalmente cessou, ela se levantou e passou um pouco de água nos olhos, secando-os em seguida com a manga da blusa. Respirou fundo, depois mais fundo. Ela não podia sucumbir. Precisava ser forte, precisava encontrar uma forma de buscar ajuda. Pensou em postar uma foto do marido engafanhotado no Instagram. Talvez aquilo gerasse uma mobilização popular e...

    Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de passos. Alguém estava se aproximando. Seria um ladrão que se aproveitaria do seu momento de desespero para assaltar a casa? Ou um membro da sociedade protetora dos animais que identificou a metamorfose com um radar e estava vindo resgatar seu marido? Sara estava cansada demais para pensar. Não sabia o que fazer, nem como reagir. Só queria que aquele pesadelo acabasse. Respirou fundo e olhou mais uma vez para os olhos do marido-gafanhoto. Virou-se para a porta e... tomou um susto. 

    _ JÚLIO??????

    _ Que foi?

    Sara olha para o marido, olha para o gafanhoto e outra vez para o marido.

    _ Nada, não, nada não... On-onde você tava? Te procurei na casa inteira.

    _ Fui ajudar a dona Cleide a carregar as sacolas de compra. 

    _ Ah...

    Nesse momento, o gafanhoto pula da geladeira e sai pela janela. Júlio parece não ver, mas Sara o segue com os olhos.

    _ Ow, o que você tá fazendo aí, segurando esse livro com essa cara de jacu?

    _ N-nada não...

    _ Ah, então sai da frente que eu preciso lavar essa louça aí que já tá quase na hora da janta, né?

    Esse post é uma crônica escrita com base na notícia "Dona de casa se assusta ao encontrar gafanhoto 'gigante' em cima de geladeira em MS", publicada pelo G1 no dia 29/06/2020. Todas as informações aqui contidas e que vão além da notícia são fictícias e fazem parte do projeto Notícia Crônica (saiba mais sobre o projeto clicando aqui).
    . 29 junho 2020 .

    Pense em William James [...] que uma vez comparou qualquer tentativa de estudar a consciência humana a acender uma lâmpada a fim de examinar melhor a escuridão.

    Por mais que Karen Thompson Walker faça referência a William James ao dizer que o ser humano é complexo e difícil de estudar, a mesma parece ter captado muito bem nossa essência ao descrever perfeitamente um cenário que, há menos de seis meses, era impensável para a maioria de nós. Se estivéssemos na época da inquisição, ela seria facilmente acusada de ser uma bruxa viajante do tempo - ouso dizer que essas acusações poderiam ser feitas atualmente, caso o povo brasileiro tivesse amplo acesso à leitura. Apesar disso, cá estamos: presos dentro de casa ou arriscando nossas vidas hoje para garantir nossas vidas amanhã - mesmo sem saber direito como será esse tal amanhã. 

    O "novo normal" já é a expressão de coach mais odiada entre os internautas e as fake news e teorias da conspiração fascinam alguns e indignam outros. Não temos muitas opções além de tentar viver um dia de cada vez e esperar pelo melhor. E era o que eu estava tentando fazer quando comecei a ler "Os sonhadores". Pensei que poderia ser melhor viver a pandemia dentro de um livro do que vivê-la na vida real. Porém a ficção era muito próxima da realidade, tão próxima que, a cada página lida, eu me sentia tentada a conferir a data de lançamento do livro (15 de janeiro de 2019) mais uma vez. 

    imagem por @saseko

    A fonte dos problemas, ao que parece, não é loucura, nem veneno, tampouco bactérias. Santa Lora está sendo assombrada por uma força nem viva nem morta: um vírus. Um até então desconhecido pela ciência.

    Confesso para vocês que fiquei muito tempo presa nesse post. Como eu já estou farta de dizer - e vocês estão fartos de ouvir - a escrita acadêmica me travou para a escrita despretensiosa e eu não consigo mais resenhar um livro sem que todas as minhas afirmações sejam embasadas em artigos científicos devidamente citados de acordo com as normas ABNT. Por isso, minha proposta nesse post não é fazer uma resenha em si, mas conversar um pouco sobre o enredo do livro e traçar alguns paralelos entre ele e a nossa realidade durante a pandemia da COVID-19.


    Livro: Os Sonhadores
    Escritora: Karen Thompson Walker
    Publicação: Esse livro foi publicado no Brasil pela TAG Inéditos em parceria como selo Alfaguara da Companhia das Letras.

    Sinopse: Uma pacta cidade nos Estados Unidos é transformada por uma misteriosa doença. Seus habitantes caem aos poucos em um sono profundo, perpétuo, e os que continuam despertos precisam aprender a seguir com a vida e a sobreviver - sem saber se irão acordar no dia seguinte. É um romance impactante, da autora do best-seller A idade dos milagres.


    A história do livro se passa na pacata Santa Lora: cidade pequena, cercada por uma floresta propícia a incêndios e banhada por um rio que enfrenta uma de suas piores secas. Em um dia comum, Mei percebe que sua colega de quarto está dormindo há tempo demais e resolve chamar por ajuda. Quando os paramédicos chegam, percebem que a menina está apenas dormindo, com os sinais estáveis e uma atividade cerebral intensa. No entanto, por mais que tentem, não conseguem fazê-la acordar. A partir daí, a epidemia se estende por toda a cidade, fazendo com que as pessoas caiam em um sono súbito, profundo e... interminável? Os cientistas tentam entender a doença, enquanto os doentes correm o risco de morrer por desidratação caso não sejam hospitalizados.

    A autora opta por contar a história através do ponto de vista de vários personagens: um casal com uma bebê recém nascida, um pai paranoico que desconfiava das instituições (inclusive hospitais) e que tenta proteger as filhas a todo custo, uma adolescente grávida, um homem que morava sozinho, uma pessoa mentalmente debilitada em uma casa de repouso, uma caloura tímida da universidade que estava longe da família pela primeira vez. Cada um deles tem uma forma diferente de reagir à epidemia: preocupações diferentes, necessidades específicas. Se os pais ficassem doentes, quem cuidaria da bebê? Se a caloura morresse, quem contaria a seus pais? Se o homem que morava sozinho caísse em sono profundo, alguém descobriria à tempo de levá-lo para o hospital ou ele morreria desidratado? Será que a doença interfere na gestação da adolescente? Se sim, como? 

    O mais interessante é pensar que uma professora de escrita criativa teve sensibilidade para considerar todos esses cenários e empatia suficiente para se colocar no lugar de cada uma dessas pessoas (inclusive as crianças) e perceber a complexidade da situação cada uma. Sensibilidade que os governantes do nosso país parecem não ter. Aqueles que pretendem fazer algo concreto para ajudar as pessoas mais necessitadas não têm dimensão das diversas realidades que compõe o nosso país, optando por saídas universalizadas, pouco efetivas e que ignoram as particularidades de cada um. No entanto, esse não é o nosso maior problema, visto que ainda existe um grupo de políticos que preferem usar a doença como ferramenta de genocídio, aproveitando-se da falta de infraestrutura e das necessidades do povo mais vulnerável para exterminá-los.

    Os capítulos 16 e 38 se sobressaem na narrativa por contar como as pessoas que estavam fora da cidade reagiram às notícias sobre o vírus. Infelizmente, não posso reproduzir esses dois capítulos na íntegra, mas deixo aqui alguns trechos que explicam muito bem a ideia geral que eles carregam: 

    Capítulo 16

    A essa altura, certas teorias alternativas começam a circular on-line. É o governo, dizem. Ou são as Grandes Corporações Farmacêuticas. Algum tipo de germe deve ter escapado de um laboratório da faculdade [...] O talvez não haja doença nenhuma [...] Talvez, alguns começam a dizer, Santa Lora não seja nem mesmo uma cidade real [...] Todas essas imagens quem sabe estão sendo geradas e transmitidas em alguma sala de edição no vale [...] E quem você acha que paga o salário os salários desses chamados "jornalistas" que informam todas essas notícias faltas?

     

    Capítulo 38

    Uma nova hashtag começa a figurar entre os tópicos mais comentados das redes sociais: #FarsaSantaLora [...] É isso que se trata de fato: uma desculpa para o governo assumir o controle [...] Pode ser a Rússia que esteja por trás disso, ou a Coreia do Norte[...] E vocês já ouviram os últimos números? Mil e quinhentos casos em seis semanas? Calma aí, nada se espalha tão rápido.

    Soa familiar? As narrativas e conspirações se sobressaem em detrimento da ciência, servindo a grupos de interesse específicos ou apenas se aproveitando da dificuldade que as pessoas têm de encarar a realidade. Enquanto todos esses boatos tomam o país, um grupo de cientistas de várias áreas se concentram em tentar descobrir como a doença funciona e se existe uma cura. Os profissionais da saúde sentem medo frente ao risco de contaminar seus entes queridos e, aos poucos, acabam sendo infectados e se transformam em pacientes. É estranho pensar que quando a COVID-19 não era uma possibilidade plausível, uma pessoa foi capaz de descrever as reações e desdobramentos de uma epidemia com perfeição, desde a descrença (ou excesso de crença) até os riscos aos quais os profissionais da saúde estão submetidos. 

    Durante a leitura, não pude evitar me sentir muito inocente (para não dizer burra). Para mim, todos os empecilhos que estamos vivendo frente à pandemia eram caóticos, extremos e inimagináveis: quem em pleno uso das faculdades mentais vai negar uma doença que tem o potencial de tirar milhões de vidas? Que tipo de pessoa se preocupa mais com festas, cortes de cabelo e manicure do que com a vida das pessoas? As pessoas realmente preferem acreditar em boatos do que nos estudos científicos?  Vão continuar a vida como se nada estivesse acontecendo? Aparentemente, olhando o problema de fora e encarando-o como uma possibilidade (e não como realidade caótica em que vivemos), essas reações sempre foram factíveis.

    Essa cidade, esses vizinhos que andam com seus cachorros nas ruas - não parece um lugar que nesse momento sente os efeitos de uma peste. É possível extrair um bocado de conforto a partir da normalidade dos outros - se uma epidemia estivesse de fato se espalhando, os vizinhos estariam limpando as folhas caídas nos gramados? O carteiro estaria entregando folhetos?

    Quanto à leitura em si, considerei que ler um livro sobre epidemia durante uma pandemia talvez não fosse a melhor das decisões. No entanto, me surpreendi. O livro prendeu a minha atenção, a leitura não foi custosa e, para o momento em que eu estava (e no estado emocional/psicológico em que eu estava) serviu como uma espécie de acalento. Acompanhar o decorrer dos fatos em Santa Lora fez com que eu me distanciasse um pouco da nossa situação real - o que pode ser bom, porque as notícias pararam de me fazer tão mal, mas também pode ser ruim, porque eu fiquei um pouco mais fria com relação à pandemia. Do meio para o final do livro, a autora dá um tom de magia à doença que, ao meu ver, foi desnecessário e tirou um pouco da seriedade da história. 

    Confesso que eu não teria me interessado tanto pela narrativa se estivéssemos em um contexto diferente. Não vou recomendar o livro por dois motivos. (1) Sei que essa narrativa pode desencadear reações negativas e a sua experiência de leitura pode ser muito diferente da minha. Se você decidir ler, vá com cuidado e respeite seu tempo (e sua cabeça). (2) Esse livro foi enviado pela TAG Inéditos no kit do mês de abril. A TAG costuma vender kits passados em sua loja online, mas o kit desse livro estava esgotado na última vez em que consultei. Ademais, eu estou meio brigada com a TAG por causa do atendimento deles (péssimo) e da qualidade dos produtos (já recebi dois kits com o box descolando e, pelo preço que eles cobram, isso super não deveria acontecer). Seria incoerente da minha parte recomendar a leitura de um material que não está facilmente disponível. Talvez a Companhia das Letras lance o livro em breve, mas, até onde eu pude pesquisar, não existe previsão para que isso aconteça.
    . 07 junho 2020 .

    É, eu sei. Você deve estar pensando "sério, Natália? Insetos?". Pois é, insetos. 

    Tenho a mania de tirar fotos de coisas aleatórias em ângulos estranhos e depois jogar um monte de filtros e efeitos na edição para ver no que aquilo vai dar - um passatempo inútil, já que eu nunca dediquei meu tempo a estudar fotografia e, como você vai perceber nesse post, não tenho talento natural para a coisa. Uma das coisas que costumo fotografar são insetos. Antes de me julgar, saiba que insetos são bonitinhos, sim! Tudo bem, eles podem ser assustadores e chatos, mas eles também podem ter asas e anteninhas extremamente detalhadas, com padrões de disposição superinteressantes. As pessoas só têm dificuldade em perceber esses detalhes. Talvez isso aconteça porque os insetos costumam se mover rápido demais e/ou perto demais da sua cara.  Ou talvez porque eles têm o péssimo hábito de tentar se aproveitar da sua comida. Ou porque eles podem causar alergias em algumas pessoas. Ou porque alguns transmitem doenças... enfim!

    Em minha defesa, deixo registrado que eu estava preparando um post gigantesco sobre a discografia da minha banda preferida quando a vida aconteceu e minha saúde mental pediu socorro novamente. Eu gostaria muito de dar uma pausa para me recuperar desse break down, mas já tive break downs demais e tenho um mestrado para terminar. Antes que esse espaço se tornasse mais um dos meus projetos abandonados mais uma vez, resolvi colocar essas fotos aqui. 

    Recebam com carinho (e um pouquinho de compreensão), ok?



    No início da quarentena, Manu e eu tivemos a ideia de fazer um desafio fotográfico informal. A ideia era manter o hobbie e não surtar, mas, como vocês podem ver, não deu muito certo. Um dos temas que definimos para o desafio foi "detalhes", então eu decidi tirar uma foto desse insetinho bonitinho com detalhes vermelhinhos que estava do lado de fora da minha janela e dessa joaninha simpática que estava passeando pela minha cortina. 


    Mais ou menos na mesma época desse desafio, eu fiquei um pouco perdida nas minhas tarefas. A quarentena me causou um probleminha de percepção da passagem do tempo que minha psicóloga chamou de dissociação. Bom, o que eu fiz para tentar melhorar? Uma lista dos meus afazeres? Grandes cruzes vermelhas em um calendário para marcar a passagem do tempo? Contratei um coach? Nada disso! Aproveitei que esse inseto grandão resolveu descansar em uma parede branca aqui de casa e fiz uma sessão fotográfica com ele. Ao todo foram 37 fotos e essa foi a minha preferida.



    Meu pai costuma ser levemente desleixado com o jardim aqui de casa. Ele plantou uma flor vermelha que se parece muito com bico-de-papagaio e ela cresceu bem mais do que o esperado - hoje ela está bem mais alta do que eu (o que não é lá grande coisa porque eu não sou uma pessoa alta, mas, ainda assim, muito para uma flor de jardim). Meu pai não quer cortar a planta porque acha ela bonita do jeito que está e no fim de semana passado eu reparei que ela está servindo de lar para um monte de insetos. Resolvi me meter no meio das plantas para tentar fotografar alguns. Não achei que as fotos ficaram boas e foi bem chatinho tentar ajustar as cores - tanto que deixei a última em preto e branco.

    INÍCIO DE UM SONHO / DEU TUDO ERRADO


    A maior dificuldade que eu tenho ao tentar tirar fotos de insetos é o tamanho deles. A maioria deles é muito pequena e eu fico com medo de chegar a câmera perto demais e acabar espantando eles para longe. O zoom do celular é péssimo e nas poucas vezes em que tentei sair correndo para pegar a câmera (que tem um zoom bem mais decente) o inseto foi embora e eu fiquei lamentando. As últimas fotos desse post são justamente essas fotos que deram errado - não que as outras tenham dado super certo, mas essas certamente ficaram piores.

    Uma das coisas que eu tento fazer para não perder o registro é aplicar um monte de efeitos de luz para dar aquela impressão de "estou nos anos 90 e, ops, acabei queimando a borda dessa foto na hora de revelar o filme" ou de "ops, bati uma foto analógica fora de foco".

    Essa abelha saiu voando bem na hora em que eu tentei tirar a foto.
    Uma mariposa na janela em um dia de chuva seria bem mais poético se eu conseguisse focar na mariposa

    E esses foram os insetos que me fizeram companhia na quarentena. A quem interessar possa, todas as fotos foram tiradas com a câmera do MI 9 SE da Xiaomi (aquela marca que faz coisas muito melhores e mais baratas do que as outras marcas), com exceção da sessão fotográfica do inseto grandão, que foi feita com uma Canon SX 520 HS. Por que eu não peguei a câmera para tirar foto com um zoom decente dos insetos pequenos, mas peguei para tirar fotos de um inseto grande? Sei lá, sou doida.

    Você pode me mandar um "puta que pariu, que post mais bosta" lá no twitter.
    . 30 maio 2020 .

    Tudo o que eu escrevo é sobre escrever.

    Se você me acompanhava finado blog LAPSOS, me segue no twitter (aka melhor e pior rede social do mundo) ou já prestigiou uma das minhas tentativas fracassadas de começar uma newsletter, sabe que a escrita tem sido um grande fardo para mim. A menina que era reconhecida por escrever bem decidiu entrar em um mestrado e toda a sua confiança foi sugada pelo monstro do mundo acadêmico. Desde então, as crises se acumulam no meu colo: crises de identidade, crises de ansiedade, crises criativas, crises existenciais e, óbvio, a crise da escrita.

    Toda nova tentativa que eu faço de voltar a escrever com prazer começa com um monólogo existencial sobre essa briga eterna entre a escrita e eu. E eu imagino que você que tem acompanhado todas as minhas lamúrias - e até mesmo você que acabou de cair de paraquedas por aqui -  pode estar se perguntando "menina, se isso é tão difícil para você, se você já tentou tanto e se isso está te fazendo mal há tanto tempo, por que você não desiste? Por que não esquece isso, deixa de lado, para de forçar e começa a viver uma vida mais leve?". 

    Essa pergunta tem mais de uma resposta, mas a principal delas é: não consigo. Não consigo abrir mão da escrita porque escrevo mesmo sem escrever. Esse texto, por exemplo, já foi escrito na minha cabeça dezenas de vezes: enquanto eu tomava banho, lavava a louça, rolava na cama esperando o sono vir... Em inúmeras situações minha cabeça liga o modo "escrita" e começa a escrever. 

    Consigo diferenciar os pensamentos normais dos pensamentos de escrita porque, como a boa mineira que sou, tenho o hábito de falar e pensar engolindo as palavras. Enquanto os pensamentos normais soam como "tenque pegá os trem e botána sacola puquê o lixero vai passamanhã", os pensamentos de escrita são algo do tipo "os objetos jogados na sacola e a sacola jogada sobre ao chão. Amanhã estarão jogados em outro lugar, dando fim a seu ciclo de serventia descartável". Além disso, os pensamentos de escrita são editáveis, posso voltar e trocar "serventia" por "utilidade", inverter a ordem das frases, transformar tudo em um diálogo, mudar as pontuações. 

    Os pensamentos de escrita ecoam na minha cabeça, mas raramente passam para o papel (ou para a tela do computador, você entendeu).

    O mais frustrante sobre isso tudo é que eu poderia lotar uma biblioteca com todos os textos que não escrevi. Se eu começasse a escrever assim que os pensamentos de escrita invadissem a minha imaginação, Stephen King não seria ninguém na fila da produtividade. Mas eu não começo, não escrevo. Anoto uma coisa aqui e ali e juro para mim mesma que vou voltar nessas anotações e transformar aquilo tudo em um texto brilhante, mas procrastino essas palavras para sempre. Continuo sendo uma escritora assídua no mundo de faz de conta que existe na minha cabeça e uma grande vagabunda fracassada no mundo real.

    imagem por @tanyatrukyr

    Ah, e ainda temos uma cereja para colocar nesse bolo: a COVID-19.

    Esse post está sendo publicado no meio de uma pandemia (meio, risos, quem dera fosse o meio...). Meus pensamentos de escrita as vezes me carregam para cenários distópicos e, como sempre tive uma tendência a ser fatalista, sempre fui capaz de imaginar crimes em massa, guerras, crises econômicas catastróficas e desastres naturais de grande porte. Mas nem no auge da minha criatividade eu seria capaz imaginar que isso tudo viria junto com uma pandemia, um presidente genocida e um grupo de lunáticos que pedem a publicação de um novo AI 5 em nome da liberdade de expressão. É, eu sei. Nada é tão ruim que não possa ficar pior. 

    Enfim, no meio desse caos interno e externo, percebi que nunca vou conseguir terminar minha dissertação se não voltar a ter prazer em expulsar as palavras do meu cérebro e obrigá-las a ir para o mundo. Além disso, vejo certa beleza em começar algo no meio de uma pandemia. É como olhar na cara da morte enquanto fim e soprar a vida em forma de início - não por amor a vida em si, porque isso não faz meu tipo, mas por amor a "ser do contra".

    Essa é a tentativa número 1319 de voltar a escrever com prazer. Sejam bem vindos.

    Para ler mais reclamações, você pode me seguir no twitter.